terça-feira, setembro 11, 2007

A vida e obra do Padre Himalaya, hoje na RTP2


A intuição do Padre Himalaya, de que a energia solar e outras energias renováveis poderiam vir a tornar-se as energias do futuro, tornaram-no pioneiro daquilo que hoje se pode definir como desenvolvimento ecologicamente sustentado.

Em 1904 em St. Louis, Missouri, EUA, muita gente admirava a gigantesca estrutura de aço, onde milhares de espelhos reflectiam a luz do sol, e 80 m2 de superfície obtinham 3500º de temperatura. O pireliófero do Padre Himalaya fazia entrar Portugal na história das energias renováveis, há mais de cem anos.

Assim, em 1904, um português, conhecido como Padre Himalaya, recebia o "Grand Prix" na Exposição Mundial de St. Louis, nos EUA, por um engenho - chamado pireliófero - que utilizava a energia solar para derreter rochas e metais.

A obra do Padre Himalaya foi redescoberta em meados dos anos 90 pelo Professor Doutor Jacinto Rodrigues, que editou então um livro chamado "A Conspiração Solar do Padre Himalaya"...

O documentário recentemente realizado por Jorge António irá passar hoje, pelas 23,30h, na RTP2. A não perder!!!!...

sexta-feira, maio 18, 2007

Construir em madeira


“A madeira é um material altamente reutilizável, aproveita a energia solar e o CO2 atmosférico para a sua geração e, por sua vez, consome pouca energia para a sua transformação sem produzir no seu processo resíduos contaminantes.

O aproveitamento construtivo de madeiras certificadas retira por grande período de tempo grandes quantidades de CO2 atmosférico (1,8 Tm.de CO2 por cada Tm. de madeira) o que facilita o cumprimento dos compromissos de Kioto sobre as alterações climáticas. O aproveitamento dos produtos florestais com gestão certificada melhora os bosques e possibilita um maior desenvolvimento social do mundo rural.”

Tradução livre do texto extraído do 1.º concurso da Cátedra de la Madera de Castilla y León “Construir con Madera” (www.uva.es/agoras.arq)

Nota: Em Portugal a construção em madeira é apenas residual, no entanto somos dos maiores consumidores mundiais de betão. Sintomático disso mesmo é o facto de o concurso português mais importante ser patrocinado por uma empresa de cimento... Por outro lado há também um preconceito e ignorância enraízados sobre este (tão nobre) material.

segunda-feira, março 19, 2007

Crescimento, decrescimento sustentável e desenvolvimento ecologicamente sustentável. (Parte I)

Introdução

É frequente considerar-se a questão ecológica como uma problemática dos países ricos. Mas é cada vez mais insustentável tal cegueira, pois esta questão é da maior pertinência e diz respeito à humanidade inteira. Há alguns dias, estiveram reunidos em África, no Quénia, na cidade de Nairobi, entre o dia 6 e 17 de Novembro de 2006, mais de 6000 delegados de quase todos os países do mundo que procederam a uma reflexão sobre a mudança climática no planeta. O vice-presidente do Quénia, Moody Awori, declarou que a mudança climática é uma das ameaças mais graves à qual a humanidade foi confrontada.

Há alguns dias, o ex-vice-presidente e ex-candidato à presidência dos E.U.A., Al Gore, apresentou um filme “Uma verdade que incomoda” em que são referenciadas eventuais catástrofes ecológicas, resultantes, nomeadamente, de perturbações climáticas, se não mudarmos, nos próximos 10 anos, o actual modelo de crescimento económico.

Também, há poucas semanas, o Relatório do economista do Banco Mundial, Nicolas Stern, alertava para uma crescente subida de temperatura no planeta, fazendo prever graves consequências se não se proceder a mudanças estruturais.

É dramático constatar-se que a África, embora seja o continente menos responsável por este modelo de civilização tecnológica imposto a partir do ocidente, é hoje a região mais vulnerável do planeta, como afirmaram os congressistas de Nairobi.

Os efeitos da mudança climática conjuntamente com as consequências negativas dos processos agro-industriais e urbanos implantados em África e o saque dos bens naturais, são hoje cada vez mais visíveis:

a) O lago do Chade (um dos maiores do planeta) tem hoje 1/10 da superfície que tinha em 1963;

b) As zonas húmidas do Quénia e as neves do Kilimanjaro, estão a desaparecer, prevendo-se perturbações climáticas na zona;

c) As epidemias como a malária, cólera, desinteria, sida, etc. dizimam largos sectores da população;

d) Várias catástrofes (inundações diluvianas ao mesmo tempo que desertificações incontroláveis) assolam o continente africano já ferido por guerras e deslocações massivas da população;

É neste contexto que Wansari Muto Maathay, Prémio Nobel da Paz em 2004, criou o movimento cinturão verde plantando, num gesto simbólico e concreto, mais de 30 milhões de árvores, graças, sobretudo, à abnegação e esforço das mulheres africanas.

Esta professora universitária do Quénia, cientista e militante ecológica, declarou que a defesa do meio ambiente é, hoje, o caminho para a Paz. Referiu, no III Forum Internacional de Comunicação, que “precisamos de elevar o nível da nossa consciência moral e ter uma perspectiva ética em relação aos recursos naturais...Os países ricos exploram os recursos naturais dos pobres e os poucos ricos dos países pobres fazem o mesmo. A nossa forma de lutar contra a pobreza é lutar contra esta forma de hiperconsumo, não apenas no mundo industrializado, mas também nos países em desenvolvimento onde lamentavelmente estamos copiando o mundo rico em detrimento do nosso povo. Se seguirmos por este caminho corremos um enorme risco...

É necessário tomar consciência do risco e da gravidade da situação, deixar de pensar apenas nas vantagens a curto prazo para promover políticas de longo prazo.”[1]

Nos últimos anos o discurso da filosofia, no ocidente, parece ser cada vez mais consensual no sentido de pretender ultrapassar o paradigma mecânico newtoniano, através dum pensamento ecologizado que faça ressaltar a achega sistémica e a abordagem da complexidade. Emerge assim uma nova coerência paradigmática, científica e experimental. Até mesmo na vida quotidiana este pensamento ecologizado ganha cada vez mais pertinência. O que está a mudar?

Tomando Descartes (1596-1650) como pensador paradigmático do mecanicismo, podemos, no Discurso do Método[2], revelar a concepção do mundo que vem do séc. XVII até aos nossos dias.

Resumem-se em 5 pontos as linhas essenciais dessa concepção do mundo:

  1. O reducionismo, que pretende separar as partes do todo;
  2. A identidade analítica, que estabelece limites definidos;
  3. A não contradição e o terceiro excluído, que fundamentam o discurso binário da mecanicidade;
  4. O causalismo linear, que tende a explicar pelo passado e duma forma determinística o presente e o futuro, excluindo as forças endógenas no processo evolutivo;
  5. As etapas do progresso social, sempre evoluindo linear e automaticamente, como resultado do progresso técnico-científico assente na miragem de recursos naturais, sem limites.

Volvidos cerca de 350 anos sobre esta referência cartesiana, a obra de Edgar Morin[3] publicada na década de 70/80 do séc. XX, revela o paradigma emergente em que vivemos opondo aos 5 pontos cartesianos os seguintes fundamentos do novo pensamento orgânico:

  1. A complexidade explicita um novo olhar onde não é possível compreender os fenómenos sem a relação do uno e do multiplex;
  2. O dialogismo ou a interacção simbiótica revela o fim das fronteiras, mostrando uma realidade dinâmica que não se compadece com o positivismo estático da anterior concepção;
  3. A contradição, a diferença e a biodiversidade constituem um elemento essencial para conhecer a realidade;
  4. O processo circular entre causa e efeito, sistemicamente interactivos, e que se opõe à explicação do determinismo linear;
  5. A crítica reflexiva trazendo o abandono das grandes narrativas metafísicas e exigindo uma pilotagem permanente da consciência sobre os processos fenomenológicos. Em vez de grandes explicações totais prefere-se uma fenomenologia processual e crítica, permanentemente auto-avaliada.

Estas novas preocupações estão ainda longe de serem consensuais.

Gregory Bateson,[4]um dos pioneiros do pensamento ecológico, refere que esta concepção se desenvolve com a interacção dos interlocutores numa constante e sistémica descodificação mútua entre emissor e receptor. Como o pensamento ecológico é dinâmico vai-se metamorfoseando com o impulso endógeno e a ressonância externa. Não é uma revelação caída do céu. Resulta duma simbiose entre as pessoas e da interacção dessas pessoas com o meio envolvente. Assim, este novo processo morfogenético faz-se numa problemática de complexidade sistémica na medida em que os saberes e competências se vão adaptando e mudando nos processos civilizacionais. A reforma do pensamento[5] vai-se assim revelando face à mudança da sociedade e das instituições, ao mesmo tempo que intervém sobre elas. Daqui resulta a criação sucessiva de coerências, ou seja, de formas paradigmáticas. Porém, esses paradigmas voltarão a metamorfosear-se sem contudo desaparecerem as formas de consciência e pilotagem dessas novas metamorfoses. Deste modo é possível um trabalho de reflexão e organização sobre o próprio pensamento. Esta atitude epistemológica desenvolve metodologias e horizontes do saber que permitem uma inteligência colectiva, inteligência simbiótica que, como nos diz Pierre Levy, mutualiza conhecimentos. Refere ainda Levy que a noção de ecosistema é particularmente interessante porque permite pensar, simultaneamente, na interdependência do mesmo espaço unitário, a diversidade, a evolução e a mudança. “Torna-se assim possível seguir integralmente os ciclos de transformação no universo simbólico (cultural) em vez de procurarmos na finalidade imediata do circuito disciplinar.”[6]

Dito de outro modo, é estabelecer uma forma interactiva do pensar que articule o diacrónico e o sincrónico, o universal e o local, o aqui e agora na metamorfose sequencial dos processos evolutivos.

Esta rede da inteligênca colectiva religa abstracto e concreto, permitindo um olhar macroscópico tal como desenvolveu Joel Rosnay[7]

Estas são as novas premissas, que dão maior coerência ao paradigma emergente em que vivemos. É preciso, no entanto, desenvolver esta nova maneira de pensar com o religar conhecimentos[8], tal como tem vindo a ser propalado pelos filósofos da complexidade e da sistémica, Edgar Morin[9], Basarab[10], Rosnay e outros. É ainda de referir a necessidade de constituir uma “nova visão do mundo” como assinala Basarab Nicolescu.[11]

Basarab mostra-nos como a nova visão do mundo terá que se constituir a partir da intersecção de diferentes domínios do saber. Por isso, diz-nos que a disciplinariedade, a pluridisciplinariedade, a interdisciplinariedade e a transdisciplinariedade não são antagónicas: constituem “as quatro flechas dum só e mesmo arco do conhecimento”[12].

Este novo paradigma abre-se para o descontínuo da física quântica, mostrando a existência de vários níveis da realidade que funcionam com lógicas diversas. Tal como Bachelard, Habermas e Lupasco admitiram, as ciências ético-normativas, o humanismo estético-expressivo e o pensamento técnico-operativo, possuem lógicas diversas que caracterizam modos diferentes da apreensão da realidade: compreender, descrever e explicar explicitam registos diferenciados sobre fenómenos e vivências da realidade complexa.

Humberto Maturama e Francisco Varela[13], no seguimento do trabalho de Prigorgine, mostram-nos como os seres vivos se caracterizam pelo facto de se auto-construirem constantemente. Este facto, a que os dois biólogos chilenos chamaram “autopoïese”, revela-nos que nos sistemas vivos existe “uma rede fechada no plano da organização. No entanto, em relação ao exterior a rede é aberta, assegurando a circulação da matéria e energia necessárias à manutenção da sua própria organização e à regeneração contínua da sua estrutura.”[14]

Esta abordagem afasta-nos da concepção dum universo totalmente previsível. É uma abertura para a incerteza mas também para a possibilidade duma construção criativa.

Esta forma de pensamento foi concomitante com o desenvolvimento da ecologia. A ecologia, em constante metamorfose, tem vindo a constituir-se como uma teoria científica explicitada do seguinte modo:

a) É uma abordagem sistémica e transdisciplinar;

b) É uma fenomenologia da complexidade;

c) É uma fundamentação dos ecosistemas, baseada na circularidade dos metabolismos e não no determinismo linear, típico das máquinas;

Foi Vernadsky[15], com o livro sobre a biosfera - tese que defendeu em França durante os anos 20 - quem conceptualizou a vida do planeta como uma totalidade. Esta concepção abriu a porta para a teoria dos ecosistemas, considerando assim a vida, como um conjunto indivisível – a biocenose – que se insere (em condições específicas) na matéria bio-inerte, o biótopo.

O desenvolvimento da ecologia foi um longo processo. Desde o seu aparecimento formal, atribuído a Haeckel (a 1ª pessoa a utilizar o termo ecologia) desenvolveram-se muitas contribuições para esta teoria científica. A contribuição de Tansley permitiu a melhor compreensão do estudo dos ecosistemas marinhos e lacustres. Os ciclos bioquímicos da ecologia foram objecto de várias contribuições como Odum e outros. Por outro lado, a teoria dos sistemas de Von Bertalanfy, Neumann e Gregory Bateson alargou as perspectivas metodológicas à investigação ecológica.

Abel Wolman foi um dos primeiros cientistas a trabalhar sobre a sistémica dos fluxos urbanos e nos territórios em geral. Muitos são hoje os especialistas desta temática como por exemplo Giorgio Nebia, Virginio Bettini[16] e outros.

Por outro lado, as investigações sobre os ecosistemas fechados como a reconstituição artificial de ecosistemas que se automantêm, levaram às experiências de Clair Folsome que, nos anos 60, realizou as ecosferas, miniaturas simplificadas da biosfera. Trata-se de um pequeno aquário (uma bola de vidro com água, um pouco de terra e ar) onde uma pequena alga serve de alimento a camarões minúsculos (crill) cujos dejectos servem de alimento à alga e que, por sua vez, são decompostos por pequenas bactérias no ciclo geral de produtores, consumidores e decompositores.

As modelizações destes ecosistemas fechados permitiram muitos estudos aos cientistas russos e americanos, empenhados nas pesquisas sobre naves espaciais.

A experiência mais conhecida foi a da Biosfera 2. Oito “bionautas” viveram num mundo miniatura (uma estufa gigante com 1,2 hectares e com biomas miniaturizados) onde bactérias, vírus, fungos, plantas e animais viviam interligados em ecosistemas complexos.

Isto permitiu o estudo dos processos retroactivos entre as várias comunidades e o biótopo ali preparado.

A experiência da Biosfera 2, tendo embora falhas, permite ainda hoje o estudo significativo destes modelos e simulações úteis ao conhecimento da natureza e do ecosistema, dos fluxos energéticos e do metabolismo circular, muito embora não se deva confundir tais experiências laboratoriais com a realidade dos ecosistemas abertos.

Foram contudo estas experiências que contribuíram para os trabalhos de John Todd que desenvolveu processos de bioregeneração dos ecosistemas.

John Todd, a partir das experiências iniciadas no New Alchimist Institut, criou conjuntos de ecosistemas para a biodepuração de águas residuais. Estas e outras experiências, resultantes da observação de processos da natureza e do conhecimento botânico de certas espécies filtrantes, levaram à realização de inúmeros modelos. Desde as biotecnologias da chamada “bioremediation” até aos jardins filtrantes e aos jardins úteis e agradáveis, sucedem-se uma longa lista de experiências que têm permitido o tratamento biológico das águas usadas, de uma forma cada vez mais perfeita (permitindo a sua revitalização em água potável) e em contextos paisagísticos com preocupações estéticas.

Trata-se de uma visão cada vez mais clara da problemática ecológica e da especificidade de um funcionamento vivo dos ecosistemas[17].

(Fim da 1.ª parte)

Professor Doutor António Jacinto Rodrigues (catedrático da Faculdade de Arquitectura da Universiade do Porto) 2007

[1] http//www.rvb.jor.br/wangari.htm

[2] R. Descartes, “Discours de la Méthode”, Ed. Pléiade

[3] Edgar Morin, “La Méthode”, Ed. Seuil, Paris

[4] Gregory Bateson, “Vers une ecologie de l’esprit”, Ed. Seuil, Paris 1977

[5] Edgar Morin, “Reforma do Ensino”, Ed. Inst. Piaget, 2002

[6] Pierre Levy, “Cyberdemocracy”, Ed. Odile Jacob, Paris, 2002

[7] Joel Rosnay, “Le Macroscope”, Ed. Seuil, Paris, 1975

[8] vários autores”Relier des connaissances”. Ed. Seuil, Paris

[9] Edgar Morin, “Introdução à Complexidade”, Ed. Piaget, “Reformar o Pensamento”, Ed. Piaget,

[10] Basarab Nicolescu, “Manifesto da transdisciplinariedade”, Col. Trans, Brasil, 2001

[11] idem

[12] Basarab Nicolescu, “Transdisciplinarity-transdisciplinarité”, Ed. Hugin,Univ.Évora, Inst.Sup.Cabo Verde, 2000

[13] Ver A. Mathiew, L’Agora, vol. 4, nº3, 1997

[14] Idem

[15] Vladimir Vernadsky, “Biosphere”, Ed. Felix Alcan, 1929

[16] Organização de Virginio Bettini, “Elementos de ecologia urbana”, Ed. Trotta, Madrid, 1998

[17] Jacinto Rodrigues, “Sociedade e Território-Desenvolvimento Ecologicamente Sustentado”, Profedições, Porto, 2006

segunda-feira, março 05, 2007

Tanto para (re)aprender...

Carta de um índio ao Presidente James Monroe (Presidente dos Estados Unidos da América de 1817 a 1825)

«O Grande Chefe de Washington mandou fazer-nos saber com palavras de boa vontade que nos quer comprar as terras. Muito agradecemos a sua atenção, pois sabemos demasiado bem a pouca falta que lhe faz a nossa amizade.
Queremos considerar esta oferta porque também sabemos demasiado bem que, se o não fizéssemos, os caras pálidas nos arrebatariam as terras com armas de fogo.
Mas, como podeis comprar ou vender o céu ou o calor da terra? Esta ideia parece-nos estranha. Nem a frescura do ar, nem o brilho das águas nos pertencem. Como poderiam ser comprados? Deveríeis saber que cada pedaço desta terra é sagrado para o meu povo. A folha verde, a praia arenosa, a neblina no bosque, o amanhecer entre as árvores, os pardos insectos... são experiências sagradas e memórias do meu povo.
Os mortos do Homem Branco esquecem a sua terra quando começam a viagem através das estrelas. Os nossos mortos, pelo contrário, nunca se afastam da terra, que é a mãe. Somos uma parte dela, e a flor perfumada, o veado, o cavalo e a águia majestosa são nossos irmãos. As encostas escarpadas, os prados húmidos, o calor do corpo do cavalo e do homem, todos pertencem à mesma família.
A água cristalina que corre pelos rios e ribeiros não é somente água, também representa o sangue dos nossos antepassados. Se vo-la vendêssemos, teríeis que recordar que são sagrados e ensiná-lo aos vossos filhos.
Também os rios são nossos irmãos porque nos libertam da sede, arrastam as nossas canoas, procuram-nos os peixes. E além do mais, cada reflexo fantasmagórico nas claras águas dos lagos relata histórias e memórias da vida das nossas gentes, o murmúrio da água é a voz do pai do meu pai. Sim, Grande Chefe de Washington, os rios são nossos irmãos e saciam a nossa sede, são portadores das nossas canoas e alimento dos nossos filhos. Se vos vendermos a nossa terra teríeis que recordar e ensinar aos vossos filhos que os rios são nossos irmãos e também seus. É por isso que devemos tratá-los com a mesma doçura com que se trata um irmão.
Claro que sabemos que o homem branco não percebe a nossa maneira de ser. Para ele um pedaço de terra é igual a outro pedaço de terra, pois não a vê como irmã, mas sim como inimiga. Depois de ela ser sua, despreza-a e segue o seu caminho.
Deixa para trás a campa dos seus pais sem se importar. Sequestra a vida dos seus filhos e também não se importa. Não lhe importa a campa dos seus antepassados nem o património dos seus filhos esquecidos. Trata a sua mãe terra e seu irmão firmamento como objectos que se compram, se exploram e se vendem, tal como as ovelhas ou as contas coloridas. O seu apetite devora a terra deixando atrás de si um completo deserto.
Não consigo entender. As vossas cidades ferem os olhos do Homem Pele Vermelha. Talvez seja porque somos selvagens e não o podemos compreender. Não há um único lugar tranquilo nas cidades do homem branco. Nenhum lugar onde se possa ouvir o desenrolar das folhas ou o rumor das asas de um insecto na Primavera.
Talvez seja porque eu sou um selvagem e não compreendo bem as coisas. O barulho da cidade é um insulto para o ouvido. E eu pergunto-me “Que tipo de vida tem o homem que não é capaz de escutar o grito solitário de uma garça ou a discussão nocturna das rãs ao redor de uma jangada?”. Sou um Pele vermelha e não o consigo entender. Nós preferimos o suave sussurro do vento sobre a superfície de um lago e o odor deste mesmo vento purificado pela chuva do meio-dia ou perfumado com o aroma dos pinheiros.
Quando o último Pele Vermelha tiver desaparecido desta terra; quando a sua sombra não for mais que uma lembrança como a de uma nuvem que passa pela pradaria, mesmo então estes ribeiros e estes bosques estarão povoados pelo espírito do meu povo. Porque nós amamos este país como uma criança ama os batimentos do coração da sua mãe.
Se decidisse aceitar a vossa oferta teria que vos sujeitar a uma condição: que o homem branco os animais desta terra como irmãos. Sou selvagem e não compreendo outra forma de vida.
Tenho visto milhares de búfalos apodrecendo, abandonados nas pradarias, abatidos a tiro pelo homem branco que dispara de um comboio, que passa. Sou selvagem e não compreendo como uma máquina fumegante pode ser mais importante que o búfalo, o qual apenas matamos para sobreviver.
O que é o homem sem os animais? Se os animais desaparecessem o homem morreria de uma grande solidão. Tudo o que acontece aos animais acontecerá também ao homem brevemente. Todas as coisas estão ligadas.
Devíeis ensinar aos vossos filhos o que nós ensinámos aos nossos, que a terra é nossa mãe. Tudo o que acontece à terra, acontecerá aos filhos da terra. Se os homens cospem no chão, cospem em si mesmos.
Sabemos uma coisa que talvez o Homem Branco descubra algum dia: a Terra não pertence ao Homem, é o Homem que pertence à Terra. Tudo está interligado, como o sangue que une uma família. O Homem não teceu a trama da vida. Ele é apenas um fio. O que faz com essa trama fá-lo a si próprio. Nem sequer o Homem Branco, com quem o seu Deus passeia e fala de amigo para amigo, está isento do destino comum. Depois de tudo, talvez sejamos irmãos. Logo veremos.
(...) Também os brancos se extinguirão, talvez antes das outras tribos. O homem não teceu a rede da vida. É apenas um desses fios e está a tentar a desgraça se ousa destruir essa rede.
Tudo está ligado entre si como o sangue de uma família. Se sujardes o vosso leito, uma noite morrereis sufocados pelos vossos excrementos.
Mas vós caminhareis até à destruição, rodeados de glória e esplendor pela força de Deus, que vos troxe a esta terra e que por algum especial desígnio vos concedeu domínio sobre ela e sobre o Pele Vermelha. Esse desígnio é um mistério para nós, pois não entendemos porque se exterminam os búfalos, se domam os cavalos selvagens, se enchem os recantos secretos de um bosque com o hálito de tantos homens e se cobre a paisagem das exuberantes colinas com fios faladores.
Onde está o bosque denso? Desapareceu.
Onde está a águia? Desapareceu.
Assim se acaba a vida e só nos resta a possibilidade de tentar sobreviver.»

Texto extraído da revista «Ecos do ambiente, n.º 3, Fevereiro de 2000 - Revista do Geonúcleo - Núcleo de ambiente da Universidade Fernando Pessoa»

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Os dez mandamentos da água











1.º - Amarás a Água como o bem mais singular do nosso belo planeta azul.

2.º - Não esbanjarás a Água do planeta azul em vão.

3.º - Respeitarás os rios e o seu curso porque eles encerram tesouros de vida, beleza e harmonia que foram confiados à tua guarda.


4.º - Honrarás o pai oceano e a mãe fonte porque no seu seio foste gerado.


5.º - Não sonegarás aos vindouros o direito a usufruir da Água já que sem ela não poderão sobreviver.


6.º - Protegerás a pureza da Água não só nas palavras como nos actos.


7.º - Não furtarás a Água do teu vizinho pois não és dono da grande casa do mundo.


8.º - Não inventarás falsas desculpas, nem te refugiarás na ignorância; o conhecimento do ciclo da Água está ao teu alcance e perpetuá-lo é o teu dever.


9.º - Não degradarás a Água enquanto ancestral fonte de prazer e inspiração nem enquanto promessa viva de novas riquezas.


10.º - Não privarás os seres aquáticos que nela vivem, agindo como patrão da natureza quando és apenas um elo na sua cadeia.


Fundação Nova Cultura da Água

Com agradecimento ao "blogue" Esteira do Ambiente

Encyclopedia of Earth - A Enciclopédia da Terra

Chama-se "Enciclopédia da Terra" e é um novo endereço da rede sobre o planeta Terra, o seu ambiente natural e a sua interacção com a sociedade. É um endereço gratuito, em que rapidamente se podem pesquisar artigos escritos por professores; cientistas; profissionais; educadores e especialistas que colaboram em vários trabalhos conjuntos. Os artigos são escritos em linguagem não-técnica e de fácil acesso tanto para estudantes, professores, educadores e profissionais, como para o público em geral.
"The Encyclopedia of Earth, a new electronic reference about the Earth, its natural environments, and their interaction with society. The Encyclopedia is a free, fully searchable collection of articles written by scholars, professionals, educators, and experts who collaborate and review each other's work. The articles are written in non-technical language and will be useful to students, educators, scholars, professionals, as well as to the general public."

sexta-feira, dezembro 29, 2006

O Professor Jacinto Rodrigues apresenta o Padre Himalaya


Numa curta entrevista de cerca de cinco minutos, o Professor Jacinto Rodrigues, em entrevista à 66TV (televisão dos Pirinéus orientais) fala da vida e obra do Padre Himalaya... Para visualizar basta "clicar" na imagem que ilustra este artigo.
Recordo que
aqui (clicar) havíamos falado no Padre Himalaya e publicado uma entrevista que o Professor Jacinto Rodrigues facultou ao Portal das Energias Renováveis.
Quanto à imagem, trata-se do "Pyrheliophero", pioneira máquina solar com que em 1904 o Padre Himalaya recebeu o Grande Prémio da Exposição Universal de St. Louis, nos Estados Unidos da América.
(Fotografia obtida do livro "A Conspiração Solar do Padre Himalaya" de Jacinto Rodrigues, Porto, Edição da Cooperativa Árvore, 1999)

sexta-feira, dezembro 15, 2006

"Glosa de Natal"...


Para além de ser absolutamente imprescindível pensar (ou repensar) a época natalícia e os impactos que ela tem neste nosso mundo cada vez mais vilependiado, talvez também não seja mau recordar que, afinal, o personagem cujo nascimento agora mais uma vez se venera, era palestiniano, descendente de judeus... e pobre. Não me consigo, assim, impedir de publicar o maravilhoso texto de Marguerite Yourcenar, intitulado precisamente:

"Glosa de Natal"
“A estação dos Natais comercializados chegou. Para quase toda a gente - fora os miseráveis, o que faz muitas excepções - é uma paragem quente e clara no Inverno cinzento. Para a maioria dos celebrantes de hoje, a grande festa cristã fica limitada a dois grandes ritos: comprar, de maneira mais ou menos compulsiva, objectos úteis ou não, e empanturrar-se a si e às pessoas da sua intimidade, numa mistura indestrinçável de sentimentos em que entram igualmente a vontade de dar prazer, a ostentação e a necessidade de se divertir. E não esqueçamos os pinheiros, símbolos antiquíssimos que são da perenidade do mundo vegetal, sempre verdes, trazidos da floresta para acabarem morrendo ao calor dos fogões, e os teleféricos despejando esquiadores na neve inviolada.
Embora não sendo nem católica (excepto de nascimento e de tradição), nem protestante (excepto por algumas leituras e influências de alguns exemplos), nem mesmo cristã no sentido pleno do termo, nem por isso me sinto menos levada a celebrar esta festa tão rica de significados e seu cortejo de festas menores, o São Nicolau e a Santa Lúcia do Norte, a Candelária e os Reis. Mas limitemo-nos ao Natal, esta festa que é de nós todos. Trata-se de um nascimento, de um nascimento como todos deveriam ser, o de uma criança esperada com amor e respeito, trazendo em si a esperança do mundo. Trata-se dos pobres: uma velha balada francesa canta Maria e José procurando timidamente em Belém uma hospedaria para as suas posses, sempre desprezados em favor de clientes mais ricos e reluzentes e por fim insultados por um patrão que «detesta a pobralhada». É a festa dos homens de boa vontade, como dizia uma admirável fórmula que infelizmente já nem sempre se encontra nas versões modernas dos Evangelhos, desde a serva surda-muda dos cantos da Idade Média que ajudou Maria no parto até ao José aquecendo as fraldas do recém-nascido diante de um pequeno fogo, aos pastores cobertos de sebo mas julgados dignos da visita dos anjos. É a festa de uma raça tantas vezes desprezada e perseguida, porque é judeu o recém-nascido do grande mito cristão (falo de mito com respeito, e emprego a palavra no sentido dos etnólogos modernos, significando as grandes verdades que nos ultrapassam e de que precisamos para viver).
É a festa dos animais que participam no mistério sagrado desta noite, maravilhoso símbolo de que São Francisco e alguns outros santos sentiram a importância, mas que os cristãos comuns desprezam, não procurando neles inspiração. É a festa da comunidade humana, porque é, ou será dentro de dias, a dos três Reis cuja lenda quis que um fosse preto, alegoria viva de todas as raças da Terra levando ao menino a variedade dos seus dons. É a festa da alegria, mas também da dor, pois que a criança adorada será amanhã o Homem das Dores. É enfim a festa da própria Terra, que nos ícones da Europa de Leste vemos tantas vezes prosternada à entrada da gruta onde o Menino nasceu, a mesma Terra que na sua marcha atravessa neste momento o ponto do solstício de Inverno e nos arrasta a todos para a Primavera. Por esta razão, antes que a Igreja tivesse fixado o nascimento de cristo nesta data, ela era já, nos tempos antigos, a festa do Sol.
Parece que não é mau lembrar estas coisas que toda a gente sabe e que tantos esquecem.”

Marguerite Yourcenar em: “ O tempo esse grande escultor” - 1976

(Para ver algumas soluções para "um Natal mais cristão" clicar na imagem e aceder a www.buynothingchristmas.org)

segunda-feira, dezembro 04, 2006

IX Congresso Luso-Afro-Brasileiro


Em torno do IX Congresso Luso-Afro-Brasileiro, que decorreu em Luanda entre os passados dias 28 a 30 de Novembro, nasceu o "blogue" "Esteira do Ambiente", para o qual passamos a partir deste momento a fazer uma ligação. O primeiro texto a dar o mote, chama-se "Um colibri em cada lugar" e nasceu da colaboração dos vários intervenientes no painel "Ecologia e Meio Ambiente" deste Congresso.

segunda-feira, novembro 13, 2006

Semana Nacional da Agricultura Biológica


Nos últimos anos os produtos da agricultura biológica têm vindo a ganhar importância, reconhecimento, dimensão e excelentes perspectivas de futuro em toda a União Europeia, mas continuam a ser pouco e mal conhecidos pela generalidade dos consumidores portugueses que, em boa parte, ignoram como podem contribuir para a sua saúde, para o seu bem-estar, para o ambiente equilibrado e o crescimento sustentável dos seus países e para o futuro dos seus filhos.

Por isso a Interbio – Associação Interprofissional para a Agricultura Biológica – decidiu organizar entre 18 e 26 de Novembro próximo a primeira Semana Nacional da Agricultura Biológica – semana bio – dedicada aos consumidores.

quinta-feira, novembro 09, 2006

Joseph Beuys - Um Filósofo na Arte e na Cidade

Por Jacinto Rodrigues (professor catedrático da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto)

Muita gente, em Portugal, desconhece a vida de Joseph Beuys. E aqueles que conhecem a sua obra, conhecem-na desligada de todo o contexto em que foram criadas. As obras expostas nas galerias e nos museus não passam de cadáveres das "Acções" cujo sentido tem sido ocultado e apagado pelos críticos formalistas que tomam a nuvem por Juno. As suas obras pictóricas ou as suas esculturas, as suas instalações eram apenas pretextos para a criação de foruns para debates.
A sua "arte feia" é uma espécie de contra-imagem, geradora de evocações simbolizadas pelos objectos expostos. O artista é o sujeito capaz de evocar o significado, apenas grosseiramente enunciado por aquele simples expediente com que toda a gente pode provocar a arte nos outros, ou seja, viver criativamente a vida "desocultando" o que está apenas escondido. Com materiais e instalações simples, pretende provocar interpretações simbólicas e culturais singulares, reacções de todos os que são capazes de construir a visão artística do que apenas foi enunciado.
O "artista" fazedor apaga-se para enaltecer o artista decifrador, que ocupa agora o lugar na divina criação daquilo que foi apenas a modesta aparência ou sombra da realidade que é a vida quotidiana. Trata-se da inversão do mito da caverna de Platão. Antigamente o artista era o personagem que, através do "ícone sublime", fazia aparecer a divindade no público considerado como incapaz de comparticipar da beleza dos deuses, própria aos divinos artistas. Agora, trata-se de uma demissão do papel divino do fazedor de arte, para que caiba aos outros o papel de criadores autónomos. Mas não se pretende apenas essa reviravolta do sujeito objecto. Trata-se agora da possibilidade de toda a gente poder participar neste duplo jogo de produzir e usufruir da arte, transpondo este passo que separa o artista do não artista.
Dantes, a arte fazia consumir um imaginário totalmente elaborado pelo artista, obrigando o fruidor a delimitar-se a uma proposta definida.
A artisticidade de Beuys é o quotidiano, acessível a toda a gente, processo contínuo, obra aberta para todos os imaginários que na participação, no debate e na acção solidária vão criando mudança de vida.
Percebendo a fundamentação do seu pensamento e reconhecendo a autenticidade da sua vida, podemos compreender melhor o alcance da sua obra.
A guerra representou, certamente, na sua vida um elemento central. Beuys, ele próprio, "designou o tempo de guerra uma experiência cultural e como artista pôde incorporá-la na sua obra" (in Joseph Beuys -Heiner Stachelhaus -ParsifalEdiciones, Barcelona 1990).
Primeiramente, a situação de suportar uma guerra como um destino na frente militar. Soldado raso, não queria submeter-se às regras de obediência, porém, obrigado pela "máquina de guerra", enfrentou a experiência da morte. No Inverno de 1943, como telegrafista num bombardeiro de combate, teve um acidente. O avião depois de atingido pelos canhões antiaéreos de uma base russa, despenha-se na Crimeia, durante uma tempestade de neve. Beuys é o único sobrevivente. Está gravemente ferido. Uma fractura craniana, costelas, pernas e braços partidos.
Quando está à beira de morrer, um grupo de tártaros nómadas, que transitavam por esse lugar, acolhem-no. Cobrem-no primeiro de gordura e aconchegam-no depois com panos de flanela. E, num ambiente mágico, os "chamanes" da pequena tribo de nómadas curam-no milagrosamente. Beuys vivencia essa presença "chamánica" como algo de exemplar e significativo para a sua vida e obra. Daí a importância constante da gordura e do feltro, materiais com os quais os "chamanes" o envolveram para o curarem das queimaduras e traumatismos sofridos com o acidente. Daí a constante atitude de profundo respeito pela natureza e pela espiritualidade cósmica.
A relação com a tribo nómada quase o leva a optar por ficar para sempre nesse grupo de tártaros. Porém, para Beuys, a ligação à natureza não é chamánica. É uma espiritualização do futuro, como na antroposofia que subjaz à sua formação. A pesquisa espiritual de Beuys não procura no passado. Integra o passado espiritual num projecto de futuro. Uma espiritualidade consciente e não atávica; não adquirida mas construída... Ultrapassar o irracional e o racional, através de uma procura em que o "oculto" se torna "manifesto".
Assim, o destino é outro. A sua ligação com a natureza, com a fauna e a flora vai agora mais longe. Não são apenas os estudos que fizera, ainda rapaz no Alto Reno, que constituem a sua formação científica.
Em 1941, Beuys com 20 anos, toma conhecimento da obra de Rudolf Steiner, através do seu amigo Fritz Rothemburg que viria a morrer no campo de concentração de Gachsennhausen, em 1943. Joseph Beuys frequentou os grupos de antropósofos em Dusseldorf. Por essa altura retém a ideia da "unidade na multiplicidade", dos quatro níveis do homem: corpo físico, corpo etérico, corpo astral e o "Eu". A relação que estabelece com a natureza vai marcar a influência da antroposofia de Steiner.
A abelha e a lebre são imagens plásticas na sua obra que se referenciam à gordura e ao feltro, da sua experiência durante a guerra e que integram a polaridade metabolismo e neuro-sensorial na filosofia de Steiner .
Também o "conceito ampliado de arte", a plástica ou a "escultura social", traduzem uma ideia latente na problemática estética de Rudolf Steiner - arte como totalidade da vida. E ainda, a perspectiva de que "cada homem é um artista" sublinha a estratégia pedagógica de Rudolf Steiner, que ao fundar o movimento das Escolas Livres Waldorf, pretendia uma formação que integrasse a actividade artística como elemento essencial do programa curricular.
Joseph Beuys ao fundar ainda a "Universidade Livre Internacional" procurou através das "acções" e "instalações", organizar um movimento que, para além de uma estratégia cultural, articulasse os princípios da tripartição social de Steiner: liberdade total ao nível da cultura e aspirações espirituais, igualdade jurídica ou idênticas oportunidades sociais e fratemidade económica ou cooperação nas necessidades vitais.
Este relacionamento de Joseph Beuys com a antroposofia não é isento de controvérsia. Beuys tem um pensamento próprio sobre o olhar e a reflexão que integra na construção da sua própria pessoa.Estão presentes na sua concepção, muitas outras influências, tais como Kierkegaard, Nietzche e Marx. Ainda como influência literária na sua vida é patente a presença de Goethe/Schiller, Hoderlin, Novalis. Na arte, nota-se a marca do escultor Wilhelm Lehmbruck e do pintor Eduard Munch.
As colecções de botânica e ainda os conhecimentos que obteve no contacto pessoal com Heinz Sielmann (que veio a ser célebre cineasta da natureza e colaborador do etologista austríaco Konrad Lorenz) tomaram-no um profundo conhecedor da ecologia. E este conhecimento vai desenvolver-se ao longo da sua vida. Fundador do movimento dos verdes ele pretende imprimir a este grupo não apenas um papel político em estrito senso mas considerar a ecologia como mais do que defesa do ambiente. Transformar a política em arte. Daí a arte alargada como intervenção social. "Este conceito alargado da arte revoluciona não somente os conceitos burgueses da arte e da ciência materialista, mas renova também a actividade religiosa" (in "Joseph Beuys", Há Vinh Tho, Ed. Triades, 1991).Beuys organizou várias acções culturais que expressam toda esta nova filosofia de arte que defendeu. Vamos dar alguns exemplos:
O "Das Kapital Raum" (1970/77) pretende ser um processo itinerante de desencadear múltiplas acções em vários locais.
Estas acções contêm várias formas de intervenção: Foruns que levam a debates participados e a decisões assumidas em democracia directa, tendo em vista a transformação da vida cultural e urbana. Trata-se de uma exposição portadora de múltiplas mensagens. Compreender esta exposição é entender um processo que caracteriza a atitude filosófica de Beuys.
Em primeiro lugar é uma exposição que se metamorfoseia nos vários modos como vai transitando no tempo e nos vários locais onde é apresentada. "O acto criador é uma inspiração única e singular que pertence ao momento presente.
E é por isso que não pode ser simplesmente repetida" (Beuys in idem). Estabelece uma relação de alternativa aos museus que albergam a própria exposição. "O museu é laboratório" (in Beuys -Das Kapital Raum, Franz Joacquim Verspohl, Ed. Adam Biro, Paris, 1989), porque experimentará novas formas de articulação de artisticidade em mudança e que aspira a não ficar emparedada. Precisa, no entanto, de referências ou receptáculos mutáveis para encetar ambiguidades, conflitualidades e polaridades que a tornem visível porque a arte social, defendida por Beuys, é movimento, metamorfose e vida.
A sua exposição toma-se itinerante e nunca se mantém igual. Evolui em cada exposição. Opõe-se à função museológica tradicional, pois não pretende mostrar a obra estática e acabada! Mostra instrumentos, explicita um "atelier" de intervenção cultural: há um conjunto de painéis, sinais e diagramas. Há uma mostragem de objectos quotidianos: uma banheira de zinco onde Beuys lavará os pés a alguns dos visitantes da exposição, numa das acções que desenvolveu. Procura aí, "cristicamente", agradecer e enaltecer a fraternidade daqueles que lhe dão a importância de participarem na acção que propôs, como na referida exposição anti-museológica, iniciada no museu suíço de Zurique.
Existem ainda gravadores, machados e um piano. Beuys explicita essencialmente o processo instrumental e não a obra acabada E, com a intervenção pedagógica, estes instrumentos tornam-se operativos nos múltiplos "happenings".
Num outro exemplo de "performance", nos Estados Unidos da América, - "Coyote. I like America and America likes me" - Beuys procura articular vários arquétipos, para estabelecer sinais com significado profundo. O coiote é um pequeno lobo, símbolo mágico dos índios da América. Ao encerrar-se num espaço fechado em que procura o diálogo com o animal selvagem, ele estabelece uma ponte entre o "cão e o lobo" que se encontram no coiote e também no próprio homem. Esta performance permite revelar a possibilidade de conectar as rupturas e de as "sanar" mostrando que o paradoxal não é destituído de sentido. Ao contrário, o paradoxo manifesta o real que é contraditório, em busca da criação através do jogo, do humor e do amor.
Beuys afirma o conteúdo fundamental da sua mensagem artística desta maneira:

"Cada homem é um artista - a estética é o ser humano";


"Deve haver uma relação entre o criador e o que usufrui - viver é criar com e para a humanidade".

"Conceito ampliado de arte - arte é a vida".

"Deus e o mundo são arte - arte é ciência e ciência é arte".

"O uno é o múltiplo e o múltiplo é o uno."

Nestes simples aforismos, explicita-se a sua filosofia de arte e de vida.
Por isso Beuys considera que "a criatividade não é monopólio das artes. (...) Quando eu digo que toda a gente é artista eu quero dizer que cada um pode concentrar a sua vida nessa perspectiva: pode cultivar a artisticidade tanto na pintura como na música, na técnica, na cura de doenças, na economia ou em qualquer outro domínio... A nossa ideia cultural é muitas vezes redutora. O dilema dos museus e das instituições culturais é que limitam o campo da arte, isolando-a numa torre de marfim (...). O nosso conceito de arte deve ser universal, terá que ter uma natureza interdisciplinar com um conceito novo de arte e ciência" (1979 - entrevista com Franz Hak).
Vale a pena explicar ainda outras acções paradigmáticas que Beuys levou a cabo.
Em 1982, em Kassel, faz uma exposição como "pretexto" para o desenvolvimento de uma "acção". Após uma longa discussão sobre o homem e a árvore, onde se abordam múltiplas aproximações, desde a mitologia à antropologia e ecologia, Beuys e as várias dezenas de pessoas plantam 7000 castanheiros. "Plantando árvores, as plantas plantam-se também em nós. Assim coexistimos, sendo um no outro".
Ainda na América, Beuys passa várias horas na tenda de um índio revelando solidariedade e uma profunda compreensão antropológica pelas minorias encerradas nas reservas americanas.
Durante um comício de ecologistas, faz uma escultura com o papel proveniente dos panfletos e cartazes que pejavam o chão, onde se realizou o comício. Mostra assim que não bastam estratégias formais de afirmação de uma vontade de mudança. … preciso que no modo de fazer a mudança se manifeste exemplarmente o significado pretendido pela mudança. Essas acções têm de ser acções exemplares, acções que tocam nos arquétipos mais fundos do ser humano. "Acções" que mobilizam energias de vontade, que implicam sensibilidade e propõem a lucidez na estratégia. Durante uma manifestação contra a poluição em 1971, Beuys nada na zona poluída de Zuinder Zee. É um acto sacrificial como uma greve de fome ainda mais gritante ou talvez a ternura pela natureza doente. É uma natureza que morre por nós! Um acto, afinal, de compaixão mas de terrível apelo à consciência da comunidade para dizer que a morte de um lago é mais importante do que a simples morte de um homem.
Utilizando os dotes de professor e orador, mimo e músico, Beuys imprimia às suas "acções" uma notável clareza demonstrativa das suas ideias. E, com os recursos estéticos da sua criatividade, procurava na música, na cor e na teatralização, a força rítmica e criadora de um processo social: "A arte não reside no resultado material saído do processo artístico; na tela ou na escultura, mas na tomada de consciência do potencial criador que se manifesta nessa ocasião. A atenção deve afastar-se do objecto, para se encontrar sobre a actividade interior da alma durante o acto criador" (in Tríades 1991, Paris, Há Vinh Tho).
Joseph Beuys foi, durante a sua própria vida, sujeito a opiniões contraditórias. Deixou-nos, porém, a sua vida singular como testemunho de uma arte original. Os objectos que ele legou, alguns vendidos agora a peso de ouro, as aguarelas ou os "objectos", pretextos pedagógicos das suas "acções culturais", estão expostos em museus e galerias de todo o mundo.
Embalsamaram talvez a vida própria das suas criações. Mas, ao mesmo tempo, perpetuaram paradoxalmente memórias que continuam subversivas quando decifradas novamente.
O movimento, o fluxo da sua vida e a metamorfose da sua arte nas múltiplas acções colectivas a que chamou arte social, tinham que ver com a sua figura de chapéu de feltro, com uma voz forte e os gestos de um actor , lançando a força mágica e criativa da sua mensagem: criar com e para os outros!
Essa voz e esses gestos continuam, mesmo depois da sua morte em 23 de Janeiro de 1986, em Dusseldorf. É que a força seminal do seu projecto não se esgotou no seu tempo.
Beuys é um Max Stirner da estética. A sua postura e a filosofia da sua arte, exigem uma subversão ontológica de conceitos e de atitudes. Exigem processos de ruptura culturais e civilizacionais que estão a ser abalados com a transição do paradigma em que vivemos.
A questão ecológica, assim como a consciência planetária que a população está em vias de consolidar em torno de uma nova solidariedade gerada paradoxalmente pelo egoísmo da globalização neo-liberal, concentracionária e destruidora da biosfera, é a base objectiva e alargada para dar corpo ao pioneirismo de Joseph Beuys.
No ano passado, 2000, em Baltimore, começaram as plantações no Patterson Park e no Carrol Park, com voluntários, apoiados pelos alunos e alguns professores da Universidade e do Centro de escultura social de Minneapolis. Trata-se da conquista e transformação de espaços públicos.
Este movimento de modificação da paisagem com árvores, é uma intervenção participada da sociedade civil. É a tradução dessa nova forma alternativa da arte e da política, inaugurada pelos projectos de Beuys a que este movimento americano se referencia, como bem explicita um dos seus principais animadores, David Levy Strauss.

Bibliografia
Stachelhaus, Heiner, "Joseph Beuys", Ed. Parsifal, Barcelona, 1990
Beuys, Joseph, "Par la presente, je níappartient plus à leart", Ed. Learche, França, 1995
Beuys, Joseph, "Beuys in America", Ed. Stile, U.S.A., 1996
Filmes Vídeo
"Joseph Beuys Films", Centre G. Pompidou, Paris

Jacinto Rodrigues (Professor Catedrático da Universidade do Porto)
Artigo publicado previamento no Jornal "a Página", nº 101, Abril 2001, p. 12.

terça-feira, outubro 17, 2006

Decálogo da Ecologia

A ecologia é um nível superior de pensamento, onde tudo está relacionado com tudo, inclusive com as soluções. Como ciência do inter-relacionamento homem/natureza, ela não pode ser vista apenas como o estudo do meio físico, pois de suas pesquisas e análises depende a compreensão da harmonia entre o homem e o ambiente.

1. Ama a natureza, fonte de vida, honrando-a com dignidade, em todas as suas manifestações
2. Defende o solo onde vives, mas também aquele das demais criaturas
3. Proteje a vida dos animais, consentindo no seu abate somente para suprir as necessidades alimentares
4. Condena a produção que favorece unicamente o produtor, em detrimento da satisfação das necessidades do consumidor
5. Condena a agricultura irracional, predatória, contaminante, que tanto "sustenta" como elimina vidas
6. Não consumas alimentos suspeitos de incluirem componentes nocivos
7. Não compartilhes do modismo vulgar de que "desenvolvimento & progresso" do actual modelo socio-económico justificam tecnologias alienantes ou destrutivas
8. Denuncia todos os crimes contra a Ecologia
9. Analisa racionalmente o comportamento humano com relação ao avanço da tecnologia, bem como os referemtes aos actuais clichês políticos; indaga, pesquisa, reflete, contesta, procura esclarecer-te à luz da ciência e da ética sobre todos os actos da existência, sem escravizares-te a modismos, conceitos e convenções.
10. Liberta a tua mente e não aumentes as fileiras de acomodados mentais ou de servos da hipocrisia, pois outros podem tirar proveito do teu ideal.

Fonte: AME - Fundação Mundial de Ecologia http://www.ecologia.org.br
(Via blogue "Points of Light", a quem agradecemos)

segunda-feira, outubro 09, 2006

Urgente Edifícios Menos Poluentes


No passado dia 1 de Outubro (dia mundial da arquitectura e simultâneamente do habitat humano) a QUERCUS chamou "a atenção da sociedade civil para a necessidade de uma arquitectura mais sustentável, directamente responsável pela qualidade do habitat humano."
O artigo pode ser lido integralmente aqui (clicar)

terça-feira, outubro 03, 2006

Tempo de Teatro



Até ao próximo dia 8 ainda é possível ver a magnífica peça "Os Negros", de Jean Genet, encenada por Rogério de Carvalho, no Teatro Nacional de S. João, no Porto.

«Primeira incursão do TNSJ na curta, mas fulgurante, obra teatral de Jean Genet, a partir daquela que é muito provavelmente a peça que melhor materializa a ambição do autor de subtrair o teatro à realidade, projectando-o num espaço mágico e ritualizado onde o "real" e o "natural" são forçados a denunciar a sua impostura. Recusando qualquer tipo de aprisionamento sociopolítico da peça (não, não é uma "reflexão" sobre o racismo ou o colonialismo), o encenador Rogério de Carvalho parte para a edificação desta prodigiosa "arquitectura do vazio das palavras" à frente de um elenco constituído por actores negros com raízes na África lusófona, empenhados em emprestar à retórica de Genet o sabor dos múltiplos sotaques da língua portuguesa.» (in programa do TNSJ, Setembro - Dezembro 2006, Porto)

Um agradecimento especial ao RS, do blogue "
A Sombra", pela imagem que ilustra este texto e pela chamada de atenção ao facto que "assombrou" esta peça... A ler aqui.

terça-feira, setembro 26, 2006

"Uma Verdade Inconveniente"


Não será, seguramente, um candidato aos "Óscares" da Academia, mas será indubitávelmente um dos mais importantes filmes a ver dos últimos tempos. "Uma Verdade Inconveniente" é um documentário construído na primeira pessoa, narrado pelo senador Al Gore, num registo documental bastante acessível e sempre suportado por dados concretos e científicos.
Não é um filme "espectacular", nem irá ficar na história do cinema pelos seus créditos artísticos, mas ser-lhe-à reservado um lugar de destaque como um dos "projectos" globais mais importantes deste início de século, pela acuidade e "coragem" do seu autor... Obrigado Al Gore. Este é um filme que deveria ser "obrigatório" nas escolas... e não só.
Destaques também no "A Sombra" e "Quinta do Sargaçal"... (Xucrán)!
(Para aceder ao endereço oficial do filme basta "clicar" na imagem)

segunda-feira, setembro 18, 2006

O filme da semana...

Chama-se "A Caminho de Guantánamo" e ainda pode ser em algumas salas de cinema do "Grande Porto". Foi o filme que venceu o prémio de melhor realização na edição deste ano do Festival Internacional de Cinema de Berlim... O "poster" que se apresenta é a versão não censurada do cartaz de apresentação... (Gostávamos de saber o porquê da censura, afinal não se trata de nenhum "cartoon...)
«Parte ficção, parte documentário, "A Caminho de Guantanamo" é um olhar que nos leva ao interior da mais polémica prisão americana. O filme relata a história de três muçulmanos britânicos que estiveram detidos durante dois anos, em Guanánamo, Cuba, sem qualquer acusação. Conhecidos como "Os Três de Tipton", numa referência à sua cidade natal no Reino Unido, os três homens tinham deixado o Reino Unido para assistir a um casamento no Paquistão e acabaram capturados e detidos. Foram libertados ao fim de dois anos sem qualquer acusação.

Numa altura em que voltam a estar na mesa as suspeitas de violações dos direitos humanos nas prisões americanas e em que o Presidente George W. Bush admite estar a "estudar todas as possibilidades" para Guantanamo, antevendo a hipótese do seu encerramento, o filme de Michael Winterbottom ("9 Canções", "24 Hour Party People") lança novas achas para o debate.
"A Caminho de Guantanamo" ganhou o Urso de Prata para Melhor Realizador no Festival de Berlim, em 2006.»
In PUBLICO.PT
Para aceder ao endereço oficial do filme e ver mais pormenores basta "clicar" na imagem.

II ECOWOOD 2006


O CEMAS - Centro de Modelação e Análise de Sistemas Ambientais, da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade Fernando Pessoa - vai realizar a 2.ª edição da conferência "EcoWood", entre os próximo dias 20 e 22 de Setembro.
"Os principais objectivos da conferência são, por um lado, a divulgação dos últimos resultados do desenvolvimento de processos e/ou produtos derivados da floresta, ou de outras fontes de fibras naturais, mas com a especificidade de implicarem um menor impacte ambiental negativo do que os produtos/processos tradicionais, e, por outro lado, o de se constituir como um fórum onde investigadores e empresários poderão trocar experiências e discutir os sus interesses nas áreas da conferência." (...)
Para obter mais informações (clicar aqui)

quarta-feira, setembro 13, 2006

Notícias preocupantes...

Pentágono alvo de inquérito

por suspeitas de ter enganado investigadores e público em relação ao 11 de Setembro

A comissão que analisou a reacção norte-americana aos ataques do 11 de Setembro admitiu abrir um inquérito ao Pentágono, suspeito de ter enganado os investigadores e o público, segundo a edição de hoje do Washington Post, citada pela agência Lusa.

De acordo com o jornal, a comissão encontrou divergências entre as declarações dos responsáveis do comando do espaço aéreo norte- americano (NORAD) e a administração federal de aviação (FAA) acerca dos desvios dos aviões de Setembro de 2001.

A comissão, durante uma reunião secreta no final da sua investigação em 2004, considerou que aqueles responsáveis tinham sem dúvida infringido a lei ao fazer falsas declarações para tentar dissimular a sua reacção inadequada após os desvios, afirmaram ao diário fontes próximas do dossier.

Os investigadores decidiram então passar o dossier não ao Departamento de Justiça, mas aos inspectores-gerais dos Departamentos da Defesa e dos Transportes.

O relatório dos inspectores está concluído, explicou uma porta- voz da FAA ao jornal, sem revelar o seu conteúdo.

Durante os dois anos que se seguiram aos ataques, o Pentágono afirmou ter reagido rapidamente.

Mas a comissão, após ter escutado cassetes áudio, concluiu que a força aérea nunca chegou a ter os aviões desviados na sua linha de mira.

In Portugal Diário de 2 de Agosto de 2006

segunda-feira, setembro 11, 2006

Contra o terrorismo...


Há cinco anos caíam as torres gémeas do World Trade Center, fruto de um dos mais ignominiosos atentados terroristas da história. Há cinco anos todos éramos americanos... Porém, na altura, poucos foram os que tentaram perceber o que se tinha passado. Poucos foram os que se questionaram e que tentaram obter explicações para tudo o que aconteceu... Para a maioria bastou-lhes a "explicação oficial". Uns porque, em estado de choque, não queriam pensar. (As bombas são diferentes consoante vistas de cima, ou de baixo, como era agora, pela primeira vez, o caso...), outros porque não queriam ser apelidados de anti-patriotas, ou mesmo terroristas. E, para isso, bastava duvidar das palavras do poder e da "versão oficial". Funcionou a censura e a auto-censura (as imagens do Pentágono não mais foram vistas, p. e.). Após cinco anos, porém começam-se a ouvir muitas vozes, cada vez mais e mais fortes a exigir saber o que realmente sucedeu naquele dia, pois muitas perguntas permanecem sem resposta, até hoje...
Um dos mais "incómodos" documentos que a América produziu chama-se "Loose Change" e coloca muitas (demasiadas) questões destruindo por completo a "versão oficial" dos atentados. (Para visualizar o documentário basta clicar no título sublinhado).
Também em 11 de Setembro de 1973 a maioria preferiu aceitar a "versão oficial" dos acontecimentos passados no Chile, fechando os olhos ao "terrorismo de Estado" perpetrado contra um estado soberano e contra um presidente eleito por escrutínio democrático, cuso resultado se saldou pelo próprio assassínio do Presidente (Salvador Allende - a "versão oficial" diz que se "suicidou"...) e pelo assassínio e desaparecimento de mais de meio milhão de pessoas. A história encarregar-se-ia de trazer a verdade à superfície...
O terrorismo não tem côr. Não há terrorismo preto nem terrorismo branco... Por outro lado é impossível ser contra o terrorismo sem ser contra a guerra, pois todas as guerras são sempre géneros de terrorismo. Todas as formas de terrorismo são igualmente condenáveis, sendo que não podemos lançar pedras ao ar esperando que estas nunca nos caiam em cima das nossas próprias cabeças!...

quinta-feira, setembro 07, 2006

Congresso sobre Turismo Cultural

O Instituto Politécnico de Leiria promove, durante os dias 29 e 30 de Novembro próximos o congresso "Turismo Cultural. Territórios e Identidades". (Clicar na frase sublinhada para aceder a mais informações).

segunda-feira, julho 17, 2006

O paradigma em transição, o mercado e o ensino da arquitectura e do urbanismo

Por Jacinto Rodrigues

1. O estudo sobre as instituições pedagógicas exige uma análise aos mecanismos de funcionamento e gestão, aos currículos formativos e aos conteúdos programáticos. Exige ainda a compreensão dos perfis pedagógicos dos docentes e as relações existentes entre a formação curricular e os formandos.

As instituições pedagógicas têm assim especificidades próprias que lhes conferem um maior ou menor grau de qualificação científica e também uma maior ou menor democraticidade no funcionamento. Ainda, a estrutura curricular garante uma maior ou menor abertura crítica ao sistema de reprodução de poder.

Esta análise intrínseca dos vários sujeitos e desempenhos, no interior das instituições, é importante para a compreensão do modelo de ensino, permitindo caracterizar a rigidez ou a flexibilidade da organização face à mudança social.

Assim, a universidade, tal como qualquer instituição total, manifesta o seu carácter carceral, assistencial ou autonomizador através das suas lógicas disciplinares.

Não é objectivo deste artigo fazer "análise institucional". Pretende-se aqui, situar as instituições de ensino da arquitectura e do urbanismo, à luz dos paradigmas económico-sociais em que se inserem, revelando as pressões exercidas pelo mercado e pela dinâmica histórica produzida pelos conflitos sociais e pelas transformações técnicas.

2. Importa perceber que a noção de paradigma aqui utilizada, não expressa uma tipologia estática. O movimento histórico das relações sociais, das tecnologias e das ideias, manifesta-se através de antagonismos e contradições entre vários protagonistas e desempenhos sócio-profissionais que se expressam nas convulsões ou mudanças organizacionais. Daí que a noção de paradigma apareça como referente didáctico, pois na realidade existem transparadigmas que se metamorfoseiam ou entram em ruptura continuamente, manifestando diferentes aspectos do poder político, ora hegemónicos, ora subalternizados.

Acontece que, o que se nos afigura como a hegemonia dum poder, revela muitas vezes a fase final desse "modelo", prestes a sucumbir na voragem dos antagonismos que esse próprio poder gerou.

O capitalismo desta etapa da globalização, ou seja, da era da biotecnologia e da informática, acelerou a concentração monopolista e hegemoniza, graças ao capital financeiro, todos os processos de produção, consumo material. E tem expressão também no conhecimento, ou seja, nos quadros referenciais da produção teórica.

A globalização é pois a continuação dum processo da mundialização do capital, iniciado desde o séc. XV. Porém, as transformações técnicas e organizativas sofreram metamorfoses sucessivas.

Se o capitalismo do petróleo e da electricidade tinha o "fordismo" como expressão moderna do funcionamento das empresas e das instituições, privilegiando o carácter dos "estados-nação", o capitalismo da globalização tem o "toyotismo" como expressão das novas formas de organização empresarial. Nesta última fase, o "império" pretende sobrepôr-se ao "estado-nação". Uma cultura supra-modernista manifesta-se através dum desejo de integração mundializada dos estados, num consumismo de massas mais alargado e numa cultura dominante onde a indústria mediática valoriza o "entretimento", o pensamento e o comportamento homogeneizados, permitindo apenas singularidades "guetizadas" para aparentes consensos democráticos com maior eficácia do que consensos totalitários, impostos violentamente.

Esta nova fase foi acentuada por uma dupla estratégia que desenvolveu em simultâneo:

  • a livre concorrência do neo-liberalismo conducente à vitória dos mais poderosos (factor essencial da monopolização crescente);
  • uma regulação estratégica entre os interesses hegemónicos através de organizações mundiais com atribuições económicas no mercado (F.M.I., U.E., A.P.E.C., MERCOSUR). Essas instituições governamentais mundiais fixaram também quadros jurídicos e políticos para esta "nova ordem mundial" (O.N.U., O.C.D.E., O.M.C.). E a tradução militar dessa regulação unificou os países de economia dominante numa estratégia geo-político-militar através da N.A.T.O.

Assim, assistimos por um lado a uma sociedade fragmentada e a uma cultura de mosaico, de conflitualidade e decomposição crescente (droga, criminalidade, doença, exlusão). Por outro lado, outras expressões sociais intentam fabricar consensos de maiorias com intuitos de marginalização das minorias críticas a este modelo dominante.

Assim, acentuam-se os laços de cosmopolitismo entre o capital monopolista que se caracteriza pela sua implantação transterritorial e graças ao anonimato dos accionistas. Nesta óptica, o estado e os governos tornam-se empresas de gestão dos interesses monopolistas. E os políticos têm tanto mais eficácia quanto maior "arregimentação" popular conseguem para a representatividade desse poder.

Estas mudanças significativas na mundialização económica, afectam toda a sociedade.

Para a consolidação dessa estratégia são necessários dispositivos territoriais que consolidem e façam reproduzir essa mesma estratégia de poder.

- As metropólis constituem a expressão territorial deste novo ordenamento em que os "shopings", as "gares" e os aeroportos se disseminam numa descentração geo-política dos pólos decisionais, das zonas estratégico-militares e dos pólos tecno-científicos. Não existe uma verdadeira descentralização onde participem as populações, mas sim uma descentração para maior flexibilidade do poder sobre o território e as populações em geral.

Ao desenvolver-se essa ordem territorial tecnocrática, cresce, ao mesmo tempo, uma desordem na periferia. A "cancerização" urbana, aloja os excluídos, forja as "metástases" dos subúrbios degradados, dormitórios depósitos onde se refugiam emigrantes e outros excluídos.

Surgem modelos duma nova arquitectura que se apresenta como processo de reforço engenharial em que a tecno-ciência é empregue na "requalificação" de fachadas. Procuram situações de espectáculo para a promoção do poder político, ao mesmo tempo que se diversificam novos centros de consumo e se flexibilizam novas formas de domínio através de dispositivos topológicos que são novas formas de panópticos modernizados.

Esta arquitectura funciona "como rosto do poder" sem mudança estrutural.

O design da arquitectura e do urbanismo que melhor se adapta a este processo de homogeneização promove, a par de linguagens únicas e dominantes, diferenciações aparentes, graças a um certo uso do desenho assistido por computadores.

Assim, os novos modelos de arquitectura e urbanismo, do chamado supra-modernismo, caracterizam-se por um neo-funcionalismo "high-tec" que se permite revestir com "singularidades" formais, maquilhagens do artifício produzido por essa computarização do design, submetida aos designers do lucro.

3. Assim, um certo ensino da arquitectura e do urbanismo é chamado a consolidar esta estratégia dominante.

Acontece porém que, face a esta visível globalização do modelo capitalista, surgem contradições cada vez mais consequentes, na sua expressão de mudança e alternativa.

Não se torna evidente o apagamento dos nacionalismos face aos interesses internacionais do capitalismo. Surgiram mesmo expressões nacionalistas, cada vez mais agressivas, não se podendo afirmar a falência dos estados-nação.

Assim , ao estudarmos o paradigma da globalização, não podemos deixar de analisar as conflitualidades crescentes que assentam no antagonismo social.

A globalização acelerou o esgotamento dos recursos naturais e fez aumentar a poluição. As contradições entre o capital e o trabalho levaram à crescente exclusão de novos grupos sociais, aparecendo novas frentes de lutas. O fosso entre os países de economia dominante e os países de economia dominada foi-se alargando, produzindo uma miséria crescente, uma situação larvar de guerra e genocídio que caracteriza os fenómenos políticos mais evidentes nos países de economia dominada.

Clarificam-se estratégias, acentuam-se polaridades entre o modelo civilizacional tecno-científico e uma proposta alternativa de desenvolvimento ecologicamente sustentável. As preocupações ecológicas são cada vez mais evidentes e as alternativas concretas vão já surgindo como expressão do novo paradigma emergente.

O desenvolvimento ecologicamente sustentável torna-se assim mais claro aos olhos dos cidadãos que sofrem as consequências da globalização, geradora de poluição e de esgotamento dos bens naturais.

Também o movimento social, contra a globalização monopolista, começa agora a dar novos passos em torno de uma geo-política internacionalista e solidária. O movimento de Seatle até Porto Alegre aponta para uma nova esperança do movimento social em busca de soluções de um novo modelo civilizacional em que as energias renováveis, os processos de reciclagem e de regeneração da natureza, consigam impôr-se aos cataclismos gerados pelo paradigma da globalização. É a sociedade civil em busca de uma economia mais humanizada.

Essas rupturas ideológicas e esses novos desafios sociais, inserem-se em múltiplas brechas abertas na sociedade contemporânea.

Assim, para além das lutas e confrontos claramente manifestados contra o poder, surgem intervenções de mudança no próprio terreno instituído. Existem assim processos de ruptura em simultâneo com acomodações e adaptações.

O sistema da globalização não é incólume às novas reivindicações sociais e ecológicas. O próprio mercado aparece sensível aos novos consumos marcados por uma consciência social verde.

Com efeito, uma base social ecológica alargou-se, cada vez mais, em virtude dos graves efeitos devastadores sobre o planeta, numa exploração cega e destruidora. O alargamento da planetarização faz com que assistamos à pilotagem crescente de interesses financeiros sobre uma nova indústria verde que pretende acomodar-se às novas reivindicações continuando a auferir lucros. Isto porém, é já o sintoma de uma brecha cada vez mais profunda no modelo político hegemónico que subverte a sua própria lógica.

4. Conflito e acomodação caracterizam portanto, a situação actual deste paradigma em transição.

As preocupações de eco-desenvolvimento, as propostas de eco-cidades e o aparecimento do planeamento participado são novas frentes que têm reflexo nas propostas de ensino, no conteúdo dos projectos expressos e na realização de propostas arquitectónicas e urbanísticas. Assim, existem mesmo hoje, realizações de novos projectos de eco-desenvolvimento em curso, provenientes de "estrelas" significativas na arquitectura e no urbanismo que optaram por soluções ecológicas na realização das suas edificações. Os nomes de Foster, Herzog, Pianno, Perraudin e Lucien Croll, aparecem ligados à arquitectura solar e ao eco-urbanismo. As revistas, publicações e congressos de especialidade transcrevem e apoiam cada vez mais projectos ecológicos. Novos utentes reclamam novos lugares. As Câmaras exigem novos tipos de implantações. Estes sinais são significativos e constituem referências para a mudança no ensino da arquitectura e do urbanismo.

Deste modo assistimos a uma conflitualidade que atravessa toda a sociedade entre uma globalização de interesses meramente monopolistas e uma planetarização crescente que resulta de uma tomada de consciência ecológica e social.

O ensino reflecte este antagonismo. Se existem modelos de ensino que tendem a encarar a arquitectura como resposta tecnicista tendo em conta apenas os interesses lucrativos, existem cada vez mais propostas que tendem a expressar alternativas ao processos de planetarização em curso.

5. No terreno institucional aparecem pois estas duas tendências: escolas de ensino onde o perfil do arquitecto assenta essencialmente no pragmatismo, na eficácia, na competitividade tecnocrática e escolas de ensino onde se procura uma reflexão sobre o porquê das formas arquitecturais e urbanísticas e a busca de novas alternativas. Existe ainda, no seio duma mesma escola, esta dualidade de tendências.

O que caracteriza o ensino tecnocrático é o desprezo da reflexão teórica. A história da arquitectura aparece apenas como cardápio de modas. Substitui-se o processo educativo baseado na reflexão, pelo didactismo –expressão operativa – ou seja "treinamento" às respostas previstas pelo poder hegemónico. A tendência tecnocrática pretende apenas saber o "como" fazer.

A tendência crítica orienta-se mais para o "porquê". Procura uma reflexão epistemológica da história da arquitectura e do urbanismo, tendente à criação de respostas mais sensíveis aos interesses públicos. O centro das suas preocupações é o paradigma emergente dum desenvolvimento ecologicamente sustentado. Uma sociedade civil cada vez mais consciente, ecologicamente, á promotora desta nova "encomenda social".

6. A faculdade de arquitectura da universidade do porto, a uma escala reduzida e com o provincianismo que caracteriza o fenómeno português, na periferia destas convulsões mundiais, expressa, no entanto, os antagonismos e as contradições que acabamos de relatar. A orientação "pragmatista do conselho científico desta faculdade, presidida pelo arquitecto Nuno Portas, representa a tentativa de eliminação do ensino teórico reflexivo. Ostraciza-se o ensino teórico e promove-se uma vaga noção de "projecto" que significa uma resposta tecno-formal, alheia dos interesses públicos. Estimula-se o fachadismo e a tecno-ciência em detrimento da eco-técnica e da reflexão teórica. Isso caracteriza o ensino nestes últimos anos e a orientação do seu conselho científico, constituído na base dum golpe burocrático e estatutário.

Porém, é o movimento crescente das questões ecológicas, (reflexo dessa mesma preocupação na sociedade portuguesa e mundial), que vai inventando uma alternativa a esta escola moribunda.

Professor Doutor António Jacinto Rodrigues
Professor Catedrático da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto
[Texto previamente publicado no Jornal "a Página" , ano 10, nº 100, Março 2001, p. 10]