quinta-feira, maio 18, 2006

Exibição do filme "A utopia do Padre Himalaya"

Conversas na Sede (da Associação Campo Aberto)
Com o Professor Doutor Jacinto Rodrigues














Esta sexta-feira, dia 19, pelas 21h30, na sede da Campo Aberto
(Rua de Santa Catarina, 730 - 2º), será exibido o filme "A utopia do Padre Himalaya", realizado por Jorge António e que será apresentado pelo Prof. Jacinto Rodrigues, autor do livro "A Conspiração Solar do Padre Himalaya", que inspirou o filme.

Trata-se de uma obra cinematográfica sobre a vida e obra de uma personalidade extraordinária, o padre Himalaia, falecido em 1933, sacerdote católico, grande viajante, espírito humanista e cientista - autor de uma «máquina solar» que pode ser considerada precursora da actual tecnologia solar energética e que foi apresentada na Exposição de St. Louis (EUA) em 1904, onde recebeu um grande prémio.


Vimos por este meio convidar todos os sócios e amigos da Campo Aberto para este evento, cujo interesse não é de mais salientar - quer pelo filme, quer pela intervenção esclarecedora de Jacinto Rodrigues.


Jacinto Rodrigues é Professor Catedrático da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, onde rege actualmente a cadeira de Ecologia Urbana, e investigador do Centro de Estudos Africanos da Faculdade de Letras da mesma Universidade. É autor de diversos livros sobre Urbanismo, Ecologia, História da Arte e Arquitectura.


Foto: Padre Himalaya numa fotografia datada de 1902. (Arquivo Professor Jacinto Rodrigues)
Informação retirada do blog da Associação Campo Aberto

segunda-feira, maio 15, 2006

Universidade Experimental do Meio Ambiente

Ideias para um Projecto
Sentamo-nos à volta da mesa; o Paulo Serralheiro, a Helena Ricca, o Luís Pinto, o Queirós e eu. Depois, numa sessão seguinte tivemos o concurso do Rangel. Lateralmente entrou na "roda" o Franklin que por sua vez anda envolvido num grupo, em Braga, com afinidades neste projecto, onde o desenvolvimento ecologicamente sustentado é a base essencial.

1. Filosofia para o local da U.E.M.A.

A morfologia das edificações será como uma espécie de envelope espacial adaptável às várias funções sociais que determinam a estratégia de universidade livre. Ora a função estratégica do conteúdo pedagógico da universidade livre, consiste essencialmente em propor uma tomada de consciência das questões do meio ambiente e sobretudo a necessidade dum processo de implantação de homens no território onde o desenvolvimento seja ecologicamente sustentável. Essa tomada de consciência faz-se através duma vivência concreta. Ora esta edificação proposta para a universidade livre do meio ambiente, pretende ser uma experiência exemplar em que morfologia, sistemas de funcionamento e escolha de materiais se tornem a expressão didáctica do processo ecológico.
A estrutura arquitectónica revela em termos eco-técnicos o funcionamento dum eco-sistema auto-regulável pela intervenção humana.
O edifício é assim um nicho, um abrigo, um biótopo que procura relacionar-se com a natureza envolvente, duma forma saudável: bioclima, energias renováveis, reciclagem de lixos, materiais naturais, são as opções centrais deste eco-design explicitado na organização territorial, na arquitectura e no mobiliário.

2. Programa logístico

1. Auditório e sala polivalente;
2. Laboratório oficinal e terreno para demonstração de protótipos ecológicos: biodigestor de gás metano, diferentes eólicas, fornos solares e colectores solares, etc.
3. Atelier de saúde: sauna, massagem, hidroterapia, dança, etc.
4. Centro informático de documentação e mediateca;
5. Sala de exposições;
6. Cozinha e cantina;
7. Hortas, estufas, jardim aromático e medicinal com as respectivas estruturas de apoio. Este território dará lugar a várias práticas de agricultura biológica, paisagismo, jardinagem, permacultura, biodinâmica, etc.
8. Lago eco-e.t.a.r.;
9. Lago-piscina;
10. Bosque e viveiro;
11. Centro lúdico com jardim de aventuras;
12. Apoios sanitários;
13. Arrumos;

3. O Projecto arquitectónico

Falamos ao arquitecto Agostinho Ricca. Em breve recebemos os primeiros esquissos dum projecto.

4. Os sistemas eco-tecnológicos

Estamos a estudar materiais de construção, estufas, processos de aquecimento, protótipos de energia renovável, etc....

5. O funcionamento dum projecto eco-educativo
6. Eco-Design

Mobiliário de interior e mobiliário para exterior.

7. Organização Territorial

Eventual refúgio, casas unifamiliares e estruturas de apoio comunitário, hortas, jardins, bosques e lago.

Ponto da situação

O grupo de trabalho necessita de se alargar. Exigências transdisciplinares fazem com que este projecto procure colaboradores, contactos com outras instituições congéneres e sobretudo aguarda-se por uma câmara ou junta de freguesia susceptível de apoiar logisticamente este projecto numa "régie", em que vários intervenientes e sujeitos institucionais possam encontrar uma estratégia comum de formação civil à consciência ecológica e manutenção de espaços públicos exemplares.
Se estiveres interessado, contacta-nos através do e.mail: pagina@mail.telepac.pt

Jacinto Rodrigues
Professor Catedrático da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto

(Texto publicado previamente no Jornal "A Página", ano 9, nº 97, Dezembro 2000, p. 21.)

segunda-feira, maio 08, 2006

Terra Sã . Porto 2006


É já nos próximos dias 2, 3 e 4 de Junho a edição de 2006 da Terra Sã, Feira Biológica da Alimentação, Agricultura e Ambiente. Recordamos que no ano passado Boassas esteve representada neste evento, como "Aldeia de Portugal", por intermédio da Associação de Turismo de Aldeia. Esperemos que tal volte a suceder nesta edição. Para mais informação consultar o espaço da "AGROBIO".

sexta-feira, abril 28, 2006

S.M.S. de Saúde Pública

O Sofista bocejou com a ética
Modernizou-se e criou a quadrícula

adormeceu à sombra da estética
vai acordar um dia, na posição mais ridícula.

O ocidente globalizador e globalizante
estendeu os tentáculos sugadores à sua aldeia
consumindo 98 octanas com o fogo de Dante
dissecando o sangue de Gaia, tirando-lheo ar na apneia.

O Ser nascia da terra em Outrora
crescia na segurança da pedra intemporal
brincava com paus ao Sol da Aurora
abrigava-se em cerâmica, era simples e funcional.

Ora por agora
nasce na laje de betão
pintada de verde e castanho
e antes de ser anho
cresce na ilusão
da vinda de algo que demora.

David Oliveira, 23 de Fevereiro de 2006

(Comentário crítico ao texto do Professor Doutor Jacinto Rodrigues intitulado "Arquitectura e construção - Uma questão urgente", no âmbito da disciplina de Seminário da Faculdade de Arquitectura da Universidade Fernando Pessoa)

sexta-feira, abril 07, 2006

Curso de construção em terra

O Ecoaldeias - Portugal promove um curso de construção em taipa. É em Odemira, no Alentejo, de 3 a 16 de Julho. Tem a duração de 14 dias, com pernoitamento e comida vegetariana.

segunda-feira, abril 03, 2006

XVI Jornadas de Ambiente da Quercus...



XVI Jornadas do Ambiente - Quercus - 07 e 08 de Abril de 2006

“Construção Sustentável”

INTRODUÇÃO: A Quercus vai realizar as suas XVI Jornadas do Ambiente, nos dias 7 e 8 de Abril próximo, em Fátima. O tema escolhido é a “Construção Sustentável”. A alteração das características do clima, de uma forma acelerada, motivada pela alteração do equilíbrio da atmosfera provocada pela emissão de poluentes representará um dos maiores desafios para a Humanidade, já que se prevê que a temperatura global do planeta poderá aumentar entre 1 e 3 graus Celsius durante o século XXI. O consumo energético dos edifícios é responsável por uma parte considerável das emissões de gases responsáveis pelo efeito de estufa. Como a eficiência energética dos edifícios está ligada ao seu planeamento e construção, a adopção e boa execução das melhores soluções construtivas, bem como a utilização dos materiais mais indicados, serão contributos essenciais para a minimização ou anulação dos gastos energéticos com sistemas de climatização. A Quercus convidou especialistas com o intuito de se abordar dos fundamentos da construção sustentável, motivando novas práticas mais responsáveis e, ao mesmo tempo, proporcionar o intercâmbio de ideias e de experiências, citando exemplos e estudos de casos, dando assim a conhecer os resultados em várias áreas de intervenção. As inscrições são gratuitas e estão abertas a todos. Contamos com a sua participação!

No dia 7 irá ser apresentado o documentário "A conspiração solar do Padre Himalaya", seguido de debate com a presença do Professor Doutor Jacinto Rodrigues...

Para ver o programa e mais informações clicar aqui...

terça-feira, março 28, 2006

Sociedade e Território. Movimento de eco-aldeias

1. A fundação Rede Global de eco-aldeias, com sede internacional na Dinamarca, coordena autogestionariamente múltiplas redes continentais.É uma associação sem fins lucrativos que procura articular experiências de grupos que desejam construir o habitat de um modo ecologicamente sustentável. Informação, troca de experiências, exposições e actividades de formação são as múltiplas vertentes de rede internacional que se expressa em numerosos países e cuja sede europeia está agora implantada na Itália: GEN Europe, Via Torri superiori 5, 18039, Ventimiglia, Italy, e.mail: info@gen-europe.org.
Todas estas experiências ligadas ao movimento das eco-aldeias têm traços comuns estratégicos que se podem resumir essencialmente na preocupação ambientalista e no desenvolvimento ecologicamente sustentado. Todavia, as singularidades dessas experiências estão patentes na multiplicidade de projectos, nos modelos de gestão, na morfologia das edificações e nas soluções eco-técnicas utilizadas.
Também a localização dessas experiências variam profundamente pois encontram-se desde comunidades rurais isoladas até bairros citadinos periféricos.
O que caracteriza o projecto das eco-aldeias é a especificidade de cada experiência. A génese de uma eco-aldeia pode surgir por um acordo dos habitantes de um bairro pré-existente ou por um conjunto de amigos que resolvem comprar um terreno e aí construirem as suas casas. A importância da existência da coordenação das eco-aldeias é que as redes põem à disposição informação e experiência de múltiplas escolhas possíveis de sistemas energéticos, materiais de construção, eventual apoio jurídico e informativo no crédito bancário ou dos vários tipos possíveis de modos de gestão.
Vamos descrever a génese de uma pequena eco-aldeia em Moisdon-la-Rivière, em França e que fomos visitar. Servirá apenas como um exemplo. Esta referência não deve ser considerada típica pois são múltiplas as formas que originaram outras eco-aldeias. Queremos com esta reportagem restituir uma viagem que fizemos e que nos proporcionou conhecer um dos pioneiros deste movimento em França, Patrick Baronnet.

2.
Chegamos ao princípio da tarde. Foi difícil dar com a aldeia de Moisdon la Rivière. Só quando tomamos a estrada de Louisfert é que descobrimos o caminho do pequeno conjunto de casas rurais recuperadas, formando como que um vilarejo perdido entre o bosque verdejante da Bretanha e o vale de pastagens ao longo da ribeira, serpenteando ao fundo das mansas colinas. Logo à chegada descortinamos duas eólicas. Um velho moínho de vento em ferro, a lembrar os filmes do Far West e uma moderna e elegante eólica

aerodinâmica. A rústica casa em pedra logo ali à beira da estrada, pertencia à família
Baronnet. Eu levava debaixo do braço o livro de Patrick Baronnet "De la maison autonome à l'autonomie de penser", Ed. Le Soufle d'Or et L'Orée du Bois, 1997.
O Patrick fez-nos entrar para uma ampla sala e não tardou a aparecer a Brigitte Baronnet, com uma chaleira de chá de alecrim e uns biscoitos de aveia. A Rosa montou o tripé e o vídeo e começamos a entrevista.

Quando, quem e como começou a eco-aldeia?
Pouco depois de Maio de 68, o Patrick e a Brigitte sentiram que desejavam inventar um outro modo de viver. Vieram como professores para aquela região e iniciaram uma experiência de vida que a pouco e pouco os levou a um emprego a meio tempo para dar vasão à multiplicidade de tarefas: restaurar a velha casa, fornecer-lhe conforto e o equipamento para a autonomia. A montagem da velha eólica, o equipamento solar para a água quente, a canalização da água, a sanita reciclável para utilização do "composto" agrícola, a organização do lago com o ecosistema de algas, peixes e patos, a estufa, a horta e o pomar.
E o Patrick Baronnet arregaçava as mangas e mostrava orgulhosamente as mão grandes com que tinha feito os muros e até mesmo o colector solar. Brigitte mostrou-nos o forno-lareira onde preparava as compotas, os biscoitos e as essências que conseguia depois vender no mercado. Depois, mostrou-nos também a harpa com que dava lições particulares de música celta às crianças da vizinhança. Entretanto nasceram quatro filhos. A casa foi-se apetrechando. Uma máquina de lavar que funciona ligada à água aquecida pelo colector solar e que trabalha com a energia eléctrica produzida pela nova eólica aerodinâmica. Um painel de foto-pilhas auto-orientável veio reforçar a produção eléctrica nos dias de menos vento. E a estufa envidraçada em torno da casa veio permitir uma melhor bio-climatização.
O forno-lareira veio também ajudar no aquecimento da serpentina feita pela tubagem de água em conexão com o colector solar fixo ao telhado do casarão rural.
Ao mesmo tempo vieram as cores risonhas dos quartos, as tapeçarias, as flores, os cristais e as conchas que enfeitavam as rústicas estantes e móveis da casa. "Fizemos tudo isto aos poucos. Empréstimos, o menos possível para não perdermos a vida a ganhar para pagar a triplicar..."
Fomos até à horta. As eólicas continuavam a girar, por detrás do pomar. Ao mesmo tempo que víamos as colmeias, o lago com os peixes e os patos, Patrick explicava: "Quisemos construir esta micro-economia, esta procura de desenvolvimento auto-sustentável não para cairmos numa autarcia egoísta. Quisemos sim consolidar uma autonomia económica que resultasse da nossa própria autonomia de pensar para pudermos ser solidários livremente".
Esta aposta na solidariedade foi surgindo pouco a pouco. Menos na base de discursos teóricos, mais na exemplaridade das experiências práticas. Mais na experiência dum auto-desenvolvimento em que os erros ensinam, do que na arrogância dos especialistas que apropria um saber apenas para si. Dos pequenos encontros surgiram pouco a pouco encontros mais amplos. Pierre Rabhi, um especialista internacional do desenvolvimento ecologicamente sustentado, prontificou-se a vir falar numa festa onde não faltou música celta e montagem arquitectónica de "domes" e "zomes" como futuras formas geodésicas de construções. E assim, outras pessoas da vizinhança foram-se ligando a esta rede de aspirações e interesses. Outros ainda vieram de mais longe em busca de terrenos e casarios velhos para aí instalarem o embrião desta eco-aldeia em Moisdon la Rivière.

3.
No Porto, um grupo de amigos juntou-se em busca de um terreno não muito longe da cidade. Um projecto de eco-aldeia anda no ar!... Será que isso interessa a mais gente?

Se estiveres interessado contacta para a redacção do jornal ou através do e.mail: pagina@mail.telepac.pt

António Jacinto Rodrigues (Professor Catedrático da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto)
In Jornal "a Página" , ano 9, nº 94, Setembro 2000, p. 10.

segunda-feira, março 13, 2006

Nuclear?... Não, obrigado!!!


No dia 15 de Março completam-se 30 anos da marcha do povo da aldeia de Ferrel sobre o local onde decorriam trabalhos preparatórios para uma então projectada central nuclear, numa impressionante manifestação de recusa, pacífica e determinada. (Ler mais na EcoAgenda da Quercus). Agora que ressuscita essa perigosa (e inútil) ideia de construir centrais nucleares em Portugal, está agendada para Ferrel, domingo 19 de Março, nova manifestação para comemorar essa primeira grande recusa e relançar o debate sobre o problema energético em bases realmente sustentáveis, renováveis e alternativas. Inscrições e detalhes da deslocação informe-se na associação Campo Aberto. (Obrigado ao Bioterra)

quarta-feira, março 08, 2006

II Encontro Internacional de Ceramistas em Boassas

A Associação Por Boassas criou um blogue, designado "Encontros Internacionais de Ceramistas", onde se pode ler toda a informação sobre estes encontros (ceramistas participantes; programa; actividades paralelas; entidades patrocinadoras; etc.). O destaque vai para a próxima edição que irá decorrer durante o período de 8 a 22 de Abril próximo.

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Nuclear em Portugal?... Não, obrigado!



A "Sombra" é contra a energia nuclear. Pois, nós também!... Já o havíamos dito. Não deixa de ser curioso que enquanto países como a Alemanha encerram uma central nuclear por ano, por cá, certos "senhores" (sim, é eufemismo) proclamem hossanas e aleluias sobre o grande desenvolvimento do país. Está visto, é esta a solução para os males portugueses. Assim que se faça a primeira central nuclear (e se consiga exportar o lixo radioactivo para Angola ou o Biafra, para daqui a uns 20.000 anos dasactivar...) iremos ser então uma nação desenvolvida. Ultrapassando a própria Alemanha... Note-se. Vale a pena ler o(s) artigo(s) d'A SOMBRA - "Atomkraft? Nein danke!" e "Básico".

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

«Energia eólica, uma fonte de energia limpa que se está a tornar cada vez mais suja»

«A energia eólica constitui uma fonte energética alternativa desde sempre defendida pelos ambientalistas e por todos aqueles que se preocupam com as questões ecológicas e o futuro do nosso Planeta. Há uns anos atrás, os seus defensores não passavam de “líricos ecologistas” aos olhos dos nossos governantes. (...)»
Assim começa este interessante artigo publicado no "COREMA", Associação de Defesa do Património. [Obrigado ao "Ondas", mais uma vez...]

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Planetarização versus globalização

A etapa actual do capitalismo tem vindo a impor adaptações ao sistema económico-social. Nos anos 70/80 novos mecanismos de regulação como o GATT, o FMI e o Banco Mundial, manifestavam já uma tendência para a reorganização geral da geopolítica das grandes empresas e dos partidos políticos no poder.
Esta tendência tornou-se mais marcante e visível na última década. Hoje, são já evidentes os resultados de uma sociedade informacional com sucessivas deslocações do capital financeiro, gerando uma maior internacionalização do processo produtivo.
As consequências dessa orientação do capital financeiro, aparecem claramente na gestão através do "toyotismo" das empresas, que veio substituir a antiga gestão "fordista".
Actualmente, a flexibilidade e a multifuncionalidade são apanágio das novas "empresas rede" em que os accionistas anónimos emprestam ao capital financeiro uma estratégia mundialista que desfaz as veleidades autonómicas das burguesias dos estados-nação.
Nesta mundialização económico-social há uma necessária reorganização territorial que se expressa nas propostas de metropolização urbanística e nas morfologias supra-modernistas da arquitectura dos nossos dias.
A globalização, ou seja a nova etapa da mundialização capitalista dirigida pela nova coordenação internacionalista dos grandes monopólios, exigiu uma igualização massificadora de modos de vida, de "cultura" global e consumismos igualizadores. Nas grandes superfícies comerciais e nas grandes produções mediáticas de "enterteinment" passam modelos homogeneizadores de modos de vida e pensamento único.
Contudo, à homogeneização mundialista das grandes empresas cada vez mais concentradas na mão de minorias proprietárias, contrapõe-se a fragmentação do mundo cada vez mais desigual.
Enquanto se concentram as riquezas em fracções cada vez mais restritas da população, aumentam os marginalizados nas sociedades economicamente dominantes. E, enquanto zonas geopolíticas esbanjam e ostentam mais riqueza, aumenta o fosso da pobreza e destruição noutras áreas do globo.
Os antagonismos essenciais da natureza injusta do capitalismo mantêm-se. Agravam-se até, muito embora os mecanismos de regulação aparentem "resolver" os sintomas da crise larvar e estrutural da sociedade baseada na exploração e lucro.
A globalização não corresponde pois a uma solução estrutural da sociedade.
Apresenta-se como uma reformulação na gestão desses antagonismos estruturais. E, se em certos locais esses sintomas de crise parecem estabilizar-se é porque noutros domínios a brecha está a agravar-se.
Ora, uma das rupturas que mais se manifesta é gerada pela contradição entre este modelo produtivo do capitalismo (civilização baseada na exploração de energias fósseis e numa tecno-ciência poluitiva e destruidora de bens naturais) e a biosfera cujos recursos são limitados e cuja capacidade de reciclagem não se coaduna com a velocidade e a forma destruidora desse modelo urbano-tecnológico.
Chamaremos "planetarização" à consciência ecológica cada vez mais alargada das populações face ao ritmo destruidor dos ecosistemas, produzido pelo modelo civilizacional actual.
Esta planetarização constitui uma força cada vez mais presente nas aspirações das populações e será um factor de mobilização crescente contra o processo da globalização, transportando as aspirações mais significativas de mudança civilizacional.
Interessa, desde já, mostrar alternativas eco-técnicas e eco-tópicas que, articuladas e inseridas nas lutas cívicas, revelam a vontade de realizar novas alternativas no território.
É preciso, cada vez mais, que as lutas cívicas se traduzam em dispositivos topológicos alternativos às morfologias carcerais e alienantes do território actual.
É preciso que as escolas de arquitectura e urbanismo ultrapassem o ensino de propostas de carácter formalista. São necessários projectos que não sejam apenas a expressão duma oratória morfológica ao discurso do poder.
É necessário que os técnicos e cientistas estabeleçam rupturas na tecno-ciência revelando alternativas eco-técnicas: protótipos de produção de energias alternativas, motores de energias renováveis, biotecnologias de reciclagem de lixos, etc.
É cada vez mais necessário que experiências exemplares irrompam, não como "guetos" utópicos mas como experiências dinâmicas que ganhem, cada vez mais, largos sectores da população.
As eco-polis, as eco-aldeias, as cidades educadoras, são propostas já existentes que contêm ideias, realizações e estímulos para um processo-estratégia, que dê expressão a novas aspirações e que acabe com a resignação reinante da submissão à globalização neo-liberal que anda por aí à solta.

Jacinto Rodrigues - Professor Catedrático da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto
Texto previamente publicado no Jornal "a Página" nº 94 de Setembro 2000

Bibliografia

«Tornar Possível o Impossível», Marta Harnecker, Ed. Campos das Letras, 2000
«Metapolis ou l'Avenir des Villes», François Ascher, Ed. Odile Jacob, Paris, 1995
«Naturaleza y Ciudad », Michael Hough, Ed. G.G., 1998

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Em tempos conturbados...


Em tempos conturbados ainda há uma réstia de esperança... sobretudo quando nos deparamos com espaços como este "Local & Blogal". Um oásis para quem, neste actual deserto de ideias (e de valores) se sente "um cidadão do mundo"... A herança do al-Ândalus, de um tempo em que três diferentes culturas e religiões coexistiram e construiram uma civilização notável, felizmente, ainda se faz sentir após mais de cinco séculos... Resta-nos agradecer ao António Baeta Oliveira... (Xucrán!)

quinta-feira, janeiro 26, 2006

"Se queres a paz, cultiva a paz..."

Mahatma Gandhi

«No Dia 30 de Janeiro assinala-se, um pouco por todo o mundo, o Dia Mundial de Mahatma Gandhi em homenagem a esse grande mentor da Paz e Não-Violência, cujo assassinato ocorreu justamente nesse mesmo dia do ano de 1948.»
A ler no blog da associação "Campo Aberto".

quarta-feira, janeiro 18, 2006

Concurso Solar Padre Himalaya

Concurso Solar Padre Himalaya. Inscrições até 23 Janeiro para a 3ª edição deste concurso promovido pela Sociedade Portuguesa de Energia Solar (SPES) e a Ciência Viva. O objectivo é promover a divulgação das energias renováveis junto das crianças e jovens, através de actividades de projecto que façam uso de princípios científicos. O concurso, a decorrer até Junho de 2006, consiste na construção de protótipos que funcionam em condições reais de radiação solar e está organizado em seis escalões dirigidos a diferentes níveis de ensino. (Obrigado ao "ONDAS"). Para se saber mais sobre quem foi o "Padre Himalaya" pode-se ler na entrevista ao Professor Jacinto Rodrigues aqui publicada.

segunda-feira, janeiro 16, 2006

Hassan Fathy (n. Egipto, 1899; m. 1989)

Sim, gostamos muito da arquitectura (de terra) deste arquitecto egípcio que viveu a maior parte da sua vida no Cairo, onde trabalhava e onde foi professor na Escola de Belas Artes e também director da Escola de Arquitectura da Universidade do Cairo. Escreveu um livro de referência (penso que não editado em Portugal), intitulado "Architecture for the poor".


A imagem é uma foto da "Casa Sami". Para descobrir a arquitectura e personalidade deste autor aconselhamos a visita a - http://archnet.org/library/parties/one-party.tcl?party_id=1.

sábado, janeiro 07, 2006

A Água do Imaginário da Urbanidade

Por: A. Jacinto Rodrigues

Embora a história da humanidade seja duma extraordinária complexidade e por isso de difícil leitura simplista e redutora, podemos, contudo, revelar as características dominantes das etapas do processo histórico, socorrendo-nos de pensadores contemporâneos, que analisaram a história do urbanismo e investigaram sobre a epistemologia da ciência e da técnica: Lewis Mumford e Thomas Kuhn.
Num primeiro momento, do desenvolvimento social da humanidade, quando a economia se restringia a actividade recolectora, à caça e aos primórdios da agricultura, a tecnologia primitiva não excedia a manufactura artesanal com que se realizavam construções de fraco impacto na natureza. Os aldeamentos inseriam-se nos sítios propícios à vida social primitiva. O rio era o local privilegiado, poder-se-ia discernir um mimetismo quase total entre a comunidade dos homens, a flora, a fauna e o biótopo que suportava a vida vegetal e animal.
A este tipo de sociedade, que viria a centrar-se mais dominantemente na actividade rural, irrigada pelas águas dos rios, corresponderia uma paleotécnica que pouco mais excedia as construções de pequenas casas, de pontes, de rodas hidráulicas, utensílios agrícolas e transportes de tracção animal.
A este modo de produção, a este complexo tecnológico e civilizacional, correspondia também uma cultura e um imaginário dominante O mundo dos mitos era povoado pelo elemento primordial subjacente ao rito agrário: a água factor decisivo neste processo civilizacional.
Nada mais natural pois as aldeias e as cidades cresceram à beira da água.
As grandes civilizações despontaram junto dos estuários dos grandes rios. Assim, as cosmogonias da água povoaram os sonhos míticos e mágicos da humanidade Mas eram também mitos de terror, de monstros devoradores, de deuses sanguinários e déspotas que explicitaram os temores das cheias ou das grandes secas.
Nessa cosmogonia mágica, a força seminal da água era como que a divindade.
Na Mesopotâmia, no Médio-Oriente, o Éden estava ligado aos quatro rios e à fonte da vida.
Na China, o "wou-ki" - a água - era o rio das origens.
Na tradição azteca, "chachivotle" a água - era semente da vida.
E, no Génesis da Bíblia, a água antecedeu mesmo a criação do primeiro dia: "O sopro de Deus planava sobre as águas nas trevas que cobriam os abismos... " A importância desta cosmogonia explicitava bem a realidade concreta:
Egipto era a dádiva do Nilo; a cultura da Índia era a prece divina no rio Ganges; a fecundidade da China proliferava a partir das águas do rio Amarelo...
Assim, a mitologia exprimiu a veneração ao elemento primordial na actividade humana, ao mesmo tempo que se exprimiram também os medos profundos das catástrofes diluvianas e das chuvas torrenciais, que veiculavam as contaminações terríveis da cólera, malária e paludismo.
O segundo momento, é a passagem da situação mágica ao sentimento trágico da vida. O homem, na procura de se tornar Deus, transforma-se em Prometeu, iniciando a marcha duma revolução técnica capaz de exercer profundas modificações na Deusa-natureza.
Do aldeamento espontâneo passa-se a uma urbanização cada vez mais centrada em lógicas geopolíticas e mercantis, orientada por militares e engenheiros.
Declinaram as mitologias mágicas mas dá-se lugar a novos mitos. A natureza, quando não é vista como mero elemento passivo, é tida como perversa e monstruosa realidade que o homem deverá dominar e explorar. Daqui partem os ideais da nova tecnociência.
Os sistemas hidráulicos de drenagem, a partilha quantificada das águas, a metrificação dos terrenos irrigados, surgem como fundamentais para o exercício do poder despótico.
Da qualidade passa-se a quantidade.
A água, como bem divino, transforma-se em recurso geopolítico de interesses económicos. Perdeu o estatuto de elemento primordial.
Analisada nos laboratórios, a água será H2O. Entubada, contabilizada, poluída pela indústria, expressa o desencantamento do homem pelo mundo mágico da Antiguidade.
Da experiência empírica passa-se a experimentação. A "mágica gea", das civilizações antigas, transforma-se em "máquina-mundi", de Newton.
Consolida-se pois o maquinismo industrial, a matematização das ciências e o advento da sociedade urbano-industrial.
Este segundo momento teve mutações políticas, sociais e técnicas como de resto se verifica em todos os paradigmas pois não podem ser considerados como momentos absolutos e estanques. Na etapa inicial do mercantilismo, passa-seda manufactura para a máquino-factura.
Pouco a pouco o sistema artesanal transforma-se no processo industrial que utiliza essencialmente a denominada 'paleotécnica" que consistiu no uso da máquina a vapor e na energia do carvão.
A cidade industrial irrompe deste processo concentrador de mão de obra e de maquinaria.
No séc. XIX, uma nova tecnosfera, de grande impacto na ecosfera, vai surgir:
As populações abandonam os campos e aglomeram-se nas grandes cidades. Esventram-se os solos para se utilizarem as energias fósseis. Surge então a sociedade industrial capitalista.
A neo-técnica do séc. XX vai assentar no motor de explosão e no uso do petróleo. A reprodução alargada dos meios de produção exigem a expansão imperialista.
Um salto significativo vai-se processar com a 2a guerra mundial em que se iniciam mudanças tecnológicas como a informática e se promove o uso da energia nuclear.
O sistema urbano traduz-se na megapólis cujas diferenciações espaciais (os "zonnings") aprofundam a ruptura entre espaços construídos e espaços naturais. A sociedade de consumo e a mediatização cultural cria novos processos de dominação ideológica onde dispositivos concretos controlam a reprodução do quotidiano, ainda que ao nível do discurso se invente a democracia formal e representativa.
Quer seja o capitalismo liberal, o capitalismo de estado, o estado providência ou o neoliberalismo, o "modelo" urbano-industrial é similar.
Este "modelo" pode caracterizar-se, ecologicamente, da seguinte forma:
Desgaste de matérias-primas a um ritmo superior ao ritmo regenerativo da ecosfera.
Produção superior de resíduos poluitivos em relação a capacidade de reciclagem da natureza.
Contaminação na atmosfera, hidrosfera e litosfera, de produtos tóxicos.
Devastadora destruição da biodiversidade.
Aumento exponencial demográfico que, a longo prazo, poderá comprometer a sustentabilidade, proveniente da base biofísica planetária.
Estes factores de mudança radical entre a tecnosfera e a ecosfera, (esgotamento e contaminação progressiva, devido aos limites da biosfera, face ao modelo urbano-industrial) apresentam antagonismos no interior da sociosfera:
a) O antagonismo capital/trabalho, embora ganhando diversos contornos sociológicos (na etapa liberal, estado-providência e neo-liberal actual), faz concentrar as riquezas na mão de um grupo cada vez mais restrito, aumentando o número de excluídos.b) O antagonismo entre "países ricos" (de economia dominante) e "países pobres" (de economia dominada), agrava o fosso da autonomia, oportunidades e bem-estar e gera formas coloniais, neo-coloniais ou dependências regionais.
A problemática da água constitui, muitas vezes, o pomo de discórdia geo-estratégica no seio dos grandes interesses financeiros.
A guerra entre a Turquia e o Iraque, entre a Jordânia e Israel e entre o Sudão e o Egipto, expressam hoje grandes conflitos que tendem a alargar-se, no futuro, se não soubermos encontrar uma saída planetária e solidária em relação ao uso ecológico deste precioso bem público cada vez mais raro.
O paradigma em que vivemos, caracteriza-se por uma cultura tecno-científica que geriu o planeta como se de uma máquina se tratasse, estabelecendo relações mecânicas e redutoras e provocando graves crises no binómio sociedade/território.
O paradigma em que vivemos caracteriza-se, sociologicamente, por um sistema capitalista cuja estrutura essencial, baseada na privatização dos meios de produção, privatiza bens públicos essenciais (água, solos) no intuito de lucro duma minoria cada vez mais poderosa e concentrada, promovendo contudo relacionamentos subtis de modo a manter uma estratégia de dominação internacional, com conivências nos vários países através da lógica da globalização das multinacionais.Esta globalização não passa duma planificação geo-política de grupos financeiros dominantes, no sentido de melhor controlarem os antagonismos sociais e ecológicos que a sua própria lógica de exploração e dominação vai criando.
A implantação urbana criou acentuadas divisões e especializações, gerando assimetrias regionais e desertificação demográfica na periferia.
No solo urbano cresceram edifícios onde existiam árvores. O solo arável foi coberto por asfalto e pavimentos. Os rios tornaram-se esgotos, drenando a poluição citadina.
Os homens laicizaram os medos que outrora pululavam o seu imaginário mítico.
Agora, os "monstros" que povoam o nosso imaginário são feitos de cataclismos que parecem resultar da "Gaya", ferida pela nossa sociedade.
Neste repositório de acontecimentos trágicos da epopeia humana, vão surgindo, contudo, formas de consciência necessária para um tempo que já se avizinha e que deveria ser cada vez mais dum destino construído e não dum destino submetido.
Assim, esta aventura trágica alargou saberes e desenvolveu o sentido da história abrindo o presente a uma consciência, para si, das populações trabalhadoras, no sentido da planetarização de uma humanidade solidária com uma natureza "una" sistémica e dinâmica.
O surgir da frente ecológica, constitui o elemento essencial deste terceiro momento, em que a humanidade se encontra hoje. As dificuldades resultam do facto deste paradigma emergente irromper da herança de velhos conceitos, de sistemas redutores com que abordamos o processo civilizacional.
A água é um factor excepcional, revelador das contradições entre o paradigma tecno-científico do modelo urbano-industrial mecanicista e este novo paradigma emergente que tende a lançar as pontes para um desenvolvimento social, em busca de sustentabilidade ecológica na actividade dos homens.A nova etapa científica que caracteriza o olhar desta eco-técnica e:
a) A teoria da complexidade é o novo ponto de partida no estudo e transformação da realidade. Isto equivale a dizer que não se pode investigar e agir sem levar em conta as implicações dialéticas, as relações e incidências múltiplas e recíprocas entre os fenómenos. Daí o carácter transdisciplinar do estudo e da intervenção.b) A abordagem profiláctica e não sintomática, dos problemas: procuram-se as raízes mais determinantes dos fenómenos e não se escamoteiam falsas "soluções" com panaceias que apenas mascaram as situações de fundo.c) A abordagem estética, ética e ecotécnica: A abordagem não pode separar a lógica tecno-operativa da ética social e da sensibilidade artística. Isto quer dizer que a ciência não se restringe à "mathesis" mas que o saber inclui sensibilidade, intuição e criação.
Assim, no paradigma tecno-científico isolou-se a água do eco-sistema natural.
Porém, a questão da água só pode ser tratada restituindo a globalidade da problemática que envolve os restantes grandes reservatórios, interactivos, da biosfera: a hidrosfera relaciona-se com a atmosfera, a litosfera e a fotosfera.
Assim, a poluição das águas insere-se no processo produtivo industrial, no tipo de planeamento urbanístico, no funcionamento agro-industrial, no modo como se distribuem e consomem os produtos na nossa sociedade e nos sistemas técnicos de adução e tratamento das águas.
É necessário revelar todas as contaminações que sofre o ciclo hidrológico:
Mostrar como a poluição atmosférica produz efeitos poluitivos com as chuvas ácidas;
Revelar como os solos poluídos por lixeiras, pesticidas e fertilizantes contaminam os lençóis freáticos, por infiltração, sendo também arrastados pelas chuvas, esses elementos tóxicos.
A cidade e a água, permitem estabelecer aqui alternativas novas que se abrem para o futuro.
Os urbanistas comportaram-se até hoje como dóceis serviçais do poder político e económico dominante e dos interesses especulativos e mercantis, da sociedade capitalista:
Os automóveis são privilegiados em detrimento dos peões.
Os espaços públicos ou são reduzidos ou transformam-se em lugar de "lazer" e "embelezamento" formalista, completamente desinseridos duma perspectiva ecológica e social.
O saneamento é pensado em termos tecnicistas de modo a que se escondam os lixos e se desloquem as poluições para longe da vista.
O desenho formalista dos projectos, os sistemas mecânicos das redes viárias, os diversos processos de adução e escoamento da água e energia, assim como o tratamento de efluentes, obedecem a lógicas de curto prazo, no sentido de resolver os sintomas duma estruturação desarticulada e intrinsecamente geradora de problemas.
Esta visão, sintomatológica da tecno-ciência, além de mecanicista, no seu olhar, gera muitas vezes "soluções" que a longo prazo provocam ainda maiores perturbações.
Deslocam-se os problemas, adiam-se conflitos momentâneos para se agravarem catástrofes vindouras, geradas em latentes e permanentes convulsões descuradas.
As alternativas podem surgir em grandes momentos de rupturas. Mas há no entanto uma metamorfose que prepara a emergência paradigmática a que já estamos a assistir.
E isso é um aspecto exaltante da nossa história, que nós próprios vamos construindo, no quotidiano.
Muitas dessas alternativas estão já ao nosso alcance e se fossem mais generalizadas, o parto da nova sociedade poderia eventualmente fazer-se com menos sofrimento. Vou dar aqui alguns exemplos:
A) A Purificação biológica de águas residuais;
B) A Agricultura biológica, a biodiversidade e a bioclimatização
C) O Movimento das eco-cidades e a sustentabilidade, que são um desafio para o futuro eco-urbanismo, eco-arquitectura e eco-design.

A) Purificação biológica de águas residuais
Desde os anos 80 que se começaram a generalizar as medidas ecológicas no tratamento das águas contaminadas dos rios ao mesmo tempo que se iniciavam medidas sobre os gastos de água no sistema urbano.
A despoluição do rio Tamisa, na Inglaterra e do rio Don, no Canadá, integraram medidas naturais: a capacidade microbiológica dos solos para a filtragem de nutrientes e vários processos biológicos ensaiados na purificação hidrológica.
Assim, na década de 80 utilizaram-se muitas experiências com plantas aquáticas que funcionaram como filtros. No rio Mississipi, 0,4 hectares de jacintos de água absorveram 1.600 Kgs. de nitrogénios, 360 Kgs de fósforo, 12.300 Kgs. de fenóis e 43 Kgs. de oligoelementos altamente tóxicos.
Os tratamentos em sistemas aquáticos solares, realizados em Massachussets, nos E. U. A. acentuaram estas pesquisas. Evitaram-se erros e desenvolveram-se novos métodos.
Temos consciência de que o uso da purificação biológica não pode tornar-se agora, numa nova panaceia que permitiria a continuação da poluição em virtude de se terem realizado estes novos processos de despoluição:
Em primeiro lugar, a capacidade de reciclagem biológica tem limites. E, efectivada dum modo inconsciente, poderia tornar-se perigosa e indesejável;
Este "mercado verde" tornou-se agora num novo negócio mercantilista. Surgiram patentes sobre a fórmula dos melhores sedimentos para que as plantas purificadoras melhorem a sua função. Fazem-se segredos sobre os tipos de plantas mais eficazes para tratar os nitratos, os metais pesados, o fósforo, etc.
É contudo verdade que estes processos exigem menos infra-estruturas pesadas e pressupõem sobretudo investigação científica e conhecimentos. Felizmente, é possível encontrarem-se cada vez mais cientistas que, no sentido da defesa pública dos bens essenciais da natureza, trabalham de um modo filantrópico, sem visões de lucros mercantilistas com esses novos meios naturais de despoluição.
É necessário entender que não existem soluções "tecnicistas". Mesmo que todos estes sistemas sejam feitos com elementos da natureza, só funcionam verdadeiramente quando integrados numa concepção profiláctica e abrangente, onde é imprescindível um modo de vida diferente do modelo dominante.
A partir dos anos 90, importantes experiências permitiram encarar este problema da poluição hídrica dum modo global e sistémico. E este é o aspecto mais importante dessas experiências.
Por isso, a purificação da água através de meios ecológicos, foi reconhecida pela Alemanha, Holanda, Suécia e vários outros países europeus.
Esta metodologia permite integrar desenho urbano, forma arquitectónica, actividade agrícola, paisagismo, arte e lazer numa nova síntese criativa e catalizadora de meios regeneradores da ecosfera.
Bosques, lagunas, parques recreativos da cidade nova de Woodlands, no Texas, transformaram por completo a técnica de colectores tradicionais e abriram perspectivas de drenagem natural através de ribeiras, atravessando vegetação que em eco-sistemas estudados e agenciados por investigadores ecologistas, permitiram a purificação das águas dos rios e a recarga de águas subterrâneas.
Conseguiu-se, com este trabalho, menos custos nos gastos públicos.
Este argumento dos custos, muito em voga nas desculpas dos tecnocratas que se conformam às contabilidades mercantilistas, acabou por desarmá-los.
O exemplo alemão, da região de Emscher, no Ruhr, cuja área tem cerca de 800 Km2 e uma população com cerca de 2 milhões de habitantes, é, eventualmente, a maior operação ecológica mundial nas bacias hidrográficas.
Desde 1988 que esta renovação do meio ambiente se prepara, no quadro do IBA, como uma proposta de revitalização da bacia do rio Emscher, através da criação de uma rede de lagos e ribeiros inter-conectados, renaturalizando antigos cursos de água, poluídos pela indústria e provocando uma grande biodiversidade. A renovação urbana integrada neste território, constitui a outra vertente de intervenção.
A separação das águas da chuva e das águas usadas, a reutilização de águas usadas e a sua depuração, são objecto de um trabalho de protecção da natureza, que integra o património construído num imenso território, em busca de sustentabilidade ecológica.
As ruínas dum enorme edifício de metalurgia da empresa Thyssen, conservaram-se no local, artisticamente embelezado, de modo a que toda a monstruosa maquinaria, se torne numa espécie de templo, em memória duma paleo-técnica que se extinguiu. Sobre as paredes grotescas, deste escombro de peças da velha indústria carbonífera, os jovens esboçam agora jogos de escalagens e as crianças procuram esconderijos bizarros, que pairam no bosque biodiversificado que cresce por entre os destroços do cemitério industrial.
Foram necessários três biliões de marcos para financiar a regeneração duma natureza mutilada pelo modelo que imperou e que os nossos políticos portugueses querem ainda seguir como discípulos ordeiros dum crescimento industrialista mais do que ultrapassado.
Estas experiências ecológicas, que são inovações de vanguarda científica, deveriam ser realizadas em Portugal para que, com essa eco-técnica, se aproveitasse o fraco desenvolvimento industrial em que ainda nos encontramos, antecipando-nos assim aos malefícios duma super-industrialização poluitiva que ainda não nos tocou a um nível tão profundo.
A Exposição Internacional de Hannover está também a transformar-se numa importante amostra de propostas ecológicas. Gostaria de referir um interessante projecto em vias de construção, no âmbito desta exposição, promovido pela Demetter-Haus, (empresa de produtos biológicos) e que consiste no estabelecimento de um grande mercado de produtos biológicos dentro duma enorme cobertura envidraçada, cobrindo jardins suspensos sobre uma enorme cisterna que retém todas as águas da chuva que caírem no recinto da feira.
Essa água, uma vez retida e purificada nos " filtros biológicos" - os próprios jardins - volta a ser reutilizada nos gastos da própria feira, nomeadamente rega e serviços sanitários.
Esta ideia tinha já sido sugerida por Gaudi quando, no princípio deste século, em Barcelona, construiu o Parque Guell, previsto para uma cidade-jardim.
Aí, Gaudi construiu uma enorme cisterna que recolhia a água das chuvas, canalizada dos vários patamares por múltiplas colunas ocas. A água recolhida na cisterna era reutilizada para o regadio dos jardins.
No projecto promovido pela Demeter Haus, em Hannover, desenvolvem-se processo ecológicos de grande complexidade para que a purificação das águas da chuva se efectue de um modo profundo. Os eco-sistemas de pequenos riachos com múltiplos meandros caprichosos, com plantas depuradoras dos jardins miríficos onde não faltam cascatas e esculturas funcionais e artísticas, são a base dessa enorme função depuradora. Afinal, todo este magnífico jardim é um grande e belo filtro biológico.
Sob a coordenação de Makovecs, na arquitectura e de Herbert Dreiseitl, na organização do processo de depuração biológico-artística, está surgindo esta realização exemplar de transdisciplinaridade para este funcionalismo orgânico, onde se harmoniza a ética, a estética e a técnica, graças ao propósito ecológico da experiência.
Herbert Dreiseitl tem construído várias esculturas funcionais onde, a par da sensibilidade estética, se procura a animação com crianças sensibilizadas pelas questões ambientais e que nessas esculturas descobrem a acção de purificação e oxigenação da água.
Não queria deixar de referir também o exemplo de uma pequena comunidade na Suécia, com algumas centenas de habitantes - Jarna - que visitei e que vem consolidando, desde há alguns anos, um lindíssimo parque ecológico onde não faltam hortas biológicas, bosques, árvores de fruto, roseirais e outras flores. Todo esse parque, impregnado de biodiversidade, é ao mesmo tempo, um filtro vivo em que os lixos orgânicos fertilizam as hortas e as águas depuradas e reutilizadas, correm límpidas para o Báltico.
O excepcional desta experiência é que o funcionalismo ecológico permitiu um tratamento estético criativo que contribui maravilhosamente para um lazer que é simultaneamente utilitário.

B) Agricultura Biológica, Biodiversidade e Bioclimatizacão.
Esta atitude ecológica manifesta-se nas novas orientações na sociedade e no território. A saúde dos rios e a saúde dos homens interligam-se.
Por exemplo: a agricultura biológica abre-se a novas perspectivas para a reciclagem dos lixos orgânicos domésticos, criando-se uma adequação harmoniosa entre recepção energética de nutrientes urbanos e enriquecimento dos terrenos agrícolas.
A reutilização de águas domésticas permite a fertilização dos bosques e dos campos.
A organização dos bosques com uma escolha judiciosa das árvores, permite a expressão estética e funcional de parques e arvoredos no campo e na cidade, que se traduz em riqueza.
Uma bioclimatização pode surgir. Resguardam-se os ventos com muros verdes, com árvores adequadas despolui-se a atmosfera e revitaliza-se a terra. Veja-se a arquitectura de Renzo Piano para a Nova Caledónia. A própria arquitectura adequa-se a essa preocupação ecológica.
O tratamento paisagístico, com a abertura pequenos vales, plantação de bosques e recuperação de ribeiros e lagos, promove o desenvolvimento da biodiversidade, abrigando uma flora e uma fauna mais complexa e mais equilibrada. E todo este funcionamento eco-sistémico, permite responder as necessidades sociais de lazer, cultura, saúde, emprego, etc...

C) O Movimento das Eco-Cidades e a Sustentabilidade são um desafio para o futuro eco-urbanismo, eco-arquitectura e eco-design
A relação entre natureza e cidade exige uma mediação artístico-científica. A água é imprescindível como material artístico e como função vital do equilíbrio dos eco-sistemas.
Saúde, arte, cultura, eco-técnica e sustentabilidade são pois os factores integrados nesta perspectiva de desenvolvimento.
Energias renováveis, transportes não poluentes, edifícios ecológicos, parques de lazer e criação, lugares de despoluição e agricultura, constituem os elementos básicos para a inovação das novas cidades.
Aí a natureza não é exterior a implantação urbana. Os "contínuos verdes", até mesmo bosques e hortas urbanas, penetram a cidade. Exemplos vários tem-se realizado em vários países de diferente grau de crescimento.
Em Inglaterra formaram-se associações que promoveram as hortas biológicas urbanas e lojas de produtos naturais.
No Brasil, em Curitiba, desenvolvem-se projectos integrados e há ainda experiências inovadoras nas favelas.
Os novos cursos de água são ribeiros revitalizados que distribuem livremente as águas pluviais para os lençóis aquíferos. Jogos de água e fontes lúdicas oxigenam a água, agora viva e necessária para uma paisagem artisticamente reconstruída para uma nova sociedade.
Depois do Manifesto da arquitectura solar, os arquitectos Herzog, Rogers, Foster e outros, estão a projectar uma eco-cidade em Linz-Pichling (Áustria).
Esta nova imagem urbana, da cidade solar, pode vir a contribuir para o estímulo de outros arquitectos e urbanistas a prosseguirem no caminho ecológico. Terá 25 mil habitantes, utilizará a energia solar e terá uma rede de transportes públicos ecológicos. Os jardins, as hortas e parques terão uma expressão artística e integrada na funcionalidade ecológica para que são destinados.
São várias também as experiências de eco-urbanismo em todo o mundo:
Curitiba, no Brasil, foi precursora neste tipo de experiências que hoje alastram até às favelas de S. Paulo, graças à intervenção do arquitecto Johan Van Legen onde, com a participação das populações, se procuram caminhos para a sustentabilidade dos mais desfavorecidos .
A cidade será um eco-sistema integrado no território global e o espaço urbano será desenhado e construído como elemento desse eco-sistema em que está inserido.
O imaginário dessa nova urbanidade, que nalguns casos começa já a romper - embora o bloqueio de interesses especulativos dificulte o seu advento - não será o imaginário do racionalismo mecanicista e mercantil com que ainda convivemos. Não será também o imaginário mítico das antigas civilizações onde mágicos sonhos se entrelaçavam com medos profundos de insólitos fanatismos.
O poeta Teixeira de Pascoaes, ao percorrer estas montanhas do Marão e o vale do Tâmega, na sua profunda sensibilidade ecológica, senão mesmo de um místico panteísmo científico, entreviu, talvez, na sua forma poética, esta imagem de uma futura terra viva em que se vislumbra uma saudade tornada esperança:
"Houve um instante em que as pedras e as fontes me falaram e fiquei a ser esse instante."

A. Jacinto Rodrigues
Professor catedrático da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto
In, Jornal "a Página", ano 8, nº 78, Março 1999, p. 10.

BIBLIOGRAFIA ESSENCIAL
Beau, Michel e Calliope, "O Estado do Ambiente no Mundo", Ed. Instituto Piaget,1994
Goldsmith, Edouard, "0 Desafio Ecológico", Ed. Instituto Piaget, I 995
Hough, Michael, "Cities and Natural Process", Londres, 1995
Kuhn, Thomas, "La Structure des révolutions scientifiques", Ed. Champs-Flammarion, Paris, 1992
Lamy, Michel, "L'eau de la Nature et des Hommes", Ed. P U.Bordeaux7 1995
Lamy, Michel, "As Camadas Ecológicas do Homem", Ed. Instituto Piaget, 1995
Lovelock, James, "Gaia, a prática científica da medicina planetária", Ed. Instituto Piaget, 1996
Morin, Edgar, "Introdução ao Pensamento Complexo", Ed. Instituto Piaget, 1991
Mumford, Lewis, "A Cidade Através da História", Ed Fontes, Brasil
Ponting, Clive, "A Green History of the World", Ed. Sinclair, Londres, 1991
Rodrigues, A. Jacinto, "Arte, Natureza e Cidade", Ed. Árvore Artística e C.M.P.,Porto, 1993
Rodrigues, A. Jacinto, "Ecodesenvolvimento, Arte,Urbanismo e Arquitectura", Ed.Horizonte das Artes, Cerveira, 1993
Wakeford, Tom e outros, "A Ciência para a Terra"

terça-feira, janeiro 03, 2006

"Green Architecture"



Embora em inglês e já do (distante) ano 2000, recomenda-se vivamente a leitura do livro hoje em destaque. O autor é James Wines e é uma edição da editora "Taschen" (acessível, portanto...).
«Whereas Le Corbusier referred to the house as "a machine for living in" - ackowledging his debt to industrial sources - there is a new generation of architects who regard the earth itself as the ultimate "machine" and the human habitat as an extension of the concept of Gaia, or the earth as a living organism. (...)»

"Life is right, and the architect is wrong." Le Corbusier (toward the end of his life)

quarta-feira, dezembro 21, 2005

Sustentabilidade e Eficiência Energética na Arquitectura e Construção

A Secção Regional Sul da Ordem dos Arquitectos promove um seminário sobre "Sustentabilidade e Eficiência Energética na Arquitectura e Construção".
O seminário decorrerá entre os dias 19 e 28 de Janeiro de 2006, no Espaço Cubo, em Lisboa. No dia 19, pelas 16h45, o Professor Doutor Jacinto Rodrigues irá fazer uma palestra sobre o «Padre Himalaya e o Desenvolvimento Ecologicamente Sustentável». Seguidamente será apresentado o filme documentário «A Conspiração Solar do Padre Himalaya». Para mais informações clique
aqui.

Aprender em Curitiba

(Uma experiência urbana no brasileiro estado do Paraná, que faz fronteira com o Paraguai e com a Argentina)

Curitiba, capital do Estado do Paraná, tem quase um milhão e meio de habitantes. A sua situação geo-estratégica coloca-a num lugar privilegiado.
O Estado do Paraná faz fronteira com o Paraguai e com a Argentina.
Para além de ter uma boa abertura fronteiriça com esses países, Curitiba encontra-se numa situação específica onde, num raio de 1300 Km, estão situados os maiores pólos económicos do Brasil, ficando assim situada no centro da região mais industrializada da América do Sul. Mas, ao mesmo tempo, o Estado do Paraná confina com uma das maiores e mais belas reservas naturais: as espectaculares cataratas de Iguazú.
A experiência de Curitiba nada tem a ver com uma "utopia" ecológica desligada da envolvente social brasileira. Não é portanto um "modelo" fechado que vive por exclusão esquizofrénica da restante realidade brasileira.Contudo, contendo no seio da sociedade-cidade todos os contrastes e contradições da sociedade brasileira (a pobreza e a opulência) assiste-se também a uma realidade singular que não deixa de nos surpreender. Aqui, nesta experiência urbana, existe uma estratégia envolvente que sem rigidez nem purismos vai entrelaçando desejos e realidades, vai despoletando a participação das populações num movimento de pedagogia social, em que a utopia se concretiza e a realidade vivida tem referências românticas dum idealismo cívico e ecológico que o pessimismo conservador julgava impossível.
Duma forma sintética julgo que o segredo desta experiência reside no facto de se ligarem aspirações sociais aos interesses individuais e esses mesmos interesses às aspirações, graças a uma mobilização contínua na solução dos problemas, gerando-se pela prática a consciência acrescida das populações e do seu papel na transformação e mudança de vida.
O paradigma exemplar desta pedagogia social pode revelar-se em algumas das actuações que referiremos em seguida:

1. Reciclagem dos lixos
A campanha "lixo que não é lixo - lixo que é riqueza" promoveu, à escala do bairro, uma mobilização popular forte. Os mais desfavorecidos, com o apoio de carrinhos distribuídos pela municipalidade, transformaram-se nos "catadores de papel" e descobriam que o lixo era assim moeda de troca no "câmbio verde" organizado pelo município.
O "camião verde" apanhava, em pontos estratégicos, várias recolhas de bairro efectuadas pelos populares e "pagava" o lixo com os certificados que permitiam a troca por alimentos, livros, bilhetes culturais, brinquedos, etc. Nascia também, neste contacto entre a população e a instituição camarária, uma nova realidade: a recolha do papel em Curitiba salvava 1516 árvores por dia.

2. Apoio aos excluídos
A progressiva consciência das populações carenciadas desenvolveu-se também com a experiência da "Fazenda Solidariedade" - quinta agrícola de Campo Magro, onde se faz a reintegração social de desempregados e se promove, graças aos produtos rurais que aí se produzem, a elaboração de uma sopa distribuída por um autocarro refeitório que atende cerca de 92.212 pessoas carenciadas, por ano.

3. 0 Jardim e o Museu Botânico de Curitiba
Para além dos especialistas que investigam e coordenam os trabalhos notáveis do jardim botânico, são também convidadas escolas para o trabalho no jardim, com a orientação de professores. Aí se educa o amor pela terra e a formação ecológica das crianças e jovens.
Uma das actuações no jardim botânico foi a criação de um jardim medicinal que propiciou a plantação de espécies fitoterápicas em pequenos vasos que constituem viveiros didácticos que apoiam as "farmácias" caseiras e a "farmácia verde" em conexão com os serviços de saúde.

4. A Universidade Livre do Meio Ambiente
Reciclando postes de eucalipto, que anteriormente serviam de postes telefónicos, construiu-se um equipamento em madeira que serve de logística para a universidade livre, integrada num parque ecológico. Graças ao "design" criativo do arquitecto Domingos Bongestabes, foi possível gerar-se, com materiais pobres, uma interessante estrutura arquitectónica que se integra maravilhosamente no "sítio".
Neste local funciona uma organização não governamental, a Universidade Livre do Meio Ambiente, cuja iniciativa tem sido essencial na investigação ecológica e na formação de quadros promotores do eco-desenvolvimento.Não se pode deixar também de falar de várias outras experiências sociais, que contribuem para este envolvimento pedagógico entre a municipalidade, as instituições, as associações não governamentais e a sociedade civil: as Feiras Livres de Agricultura, que aproximam os produtores agrícolas dos consumidores; a Feira Verde, onde se comercializam produtos naturais, sem químicos; e o "Shopping Popular", cooperativa de consumo. São iniciativas em que a vida económica se manifesta numa óptica de solidariedade, procurando não apenas respostas quantitativas mas enunciando estratégias qualitativas para um modo alternativo de sociedade. O "Farol do Saber" é também mais um exemplo para melhor se entender este processo que se constrói todos os dias no seio de clivagens sociais antagónicas, entre esperanças e ilusões, num desafio permanente à recuperação estagnante e à mudança. O "Farol do Saber" está a generalizar-se pelos diferentes bairros. É um centro polivalente que funciona como Escola/Biblioteca/Sala de convívio cívico e centro da polícia municipal.
Trata-se de uma arquitectura emblemática. Referenciando-se ao "farol de Alexandria", pretende ganhar visibilidade na cidade. Implantaram-se já alguns desses edifícios modelos em vários bairros. Do lanternim cimeiro da torre, durante a noite, espelham-se os clarões luminosos, assinalando o local da cultura, do encontro cívico e da segurança social.
São estas algumas das sementes desta experiência social. Acompanham e catalizam experiências espaciais.
Na cidade, surgem zonas verdes, parques, redes de transportes públicos que pretendem em comodidade e serviço, dissuadir o tráfego automóvel no centro da cidade. Vão surgindo as propostas de concretização e melhoramento do plano director.
Fizeram-se saneamentos especiais, limparam-se ribeiros e criaram-se novos loteamentos com casas sociais, numa grande diversidade de linguagens e materiais. Está-se a promover, depois do bairro novo e no seguimento da rua das tecnologias, a cidade verde ou a eco-cidade que, distendendo-se ao longo da periferia de Curitiba, acumula experiência, multiplica dinâmicas sociais e aponta para novos modelos de espaços públicos, energias renováveis e sistemas integrados de transportes. Curitiba não é um paraíso, nem um modelo acabado onde se eternizaram ideais imutáveis de uma utopia sem falhas. Curitiba é um processo. Mas um processo onde todos os dias se tentam ganhar mais actores à construção de uma cidade onde se experimentam e inovam mudanças numa sociedade de contradições e antagonismos.

A. Jacinto Rodrigues, professor catedrático da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto
(Artigo publicado no Jornal "a Página", ano 8, nº 76, Janeiro 1999, p. 16.)

quarta-feira, novembro 16, 2005

Emannuel Rolland - O homem que planta hortas, jardins e florestas

Por Jacinto Rodrigues - Professor Catedrático da Universidade do Porto

Gian Giono no livro “O homem que plantava árvores” publicado pela 1ª vez em 1954, conta-nos a história de um homem simples, o pastor Elzeard Bouffier, que no sudeste da França, numa comarca provençal, decide seleccionar sementes de carvalhos que apanha durante as suas caminhadas com o rebanho, nas serranias quase nuas daquelas paragens.
Então, pacientemente, com a ajuda dum bastão pontiagudo, o velho homem, à medida que vai caminhando sobre as ondas telúricas da montanha, vai perfurando o solo com a sua bengala –bastão. Introduz em casa orifício uma bolota. E com o tacão do sapato tapa o buraco...
Durante muitos outonos e até primaveras, fez este gesto simples e mágico... Depois, os anos passaram e ao fim de algum tempo, aquelas montanhas nuas foram-se cobrindo de pequenas árvores que mais tarde se transformaram em carvalhos frondosos.
Esta história tem a ver com Emmanuel Rolland. Fomos vê-lo na sua pequena aldeia – La Chapelle de l’If – no norte da Bretanha e a alguns quilómetros da pequena cidade de Dinan.
Paramos a auto-caravana em frente dum antigo casarão rural.
Era a sede da Associação “Pequenos Jardins de Alunos” (“Petits Jardins des Écoliers” – http://gxardeneto.chez.tiscali.fr ).
Logo ali, na berma da estrada municipal, fica a casa de Emmanuel. Recebeu-nos fraternalmente. Está reformado mas a sua actividade continua transbordante. Logo que chegamos, à tardinha, foi-nos mostrar o “arboretum”, um ecosistema evolutivo de plantas, na pequena vila de Plouet-sur-Rance. Fomos ainda ver o “talude pedagógico” na Escola de Trevon. É uma espécie de canteiro que serve de estudo e experiência de botânica aplicada.
Durante o percurso, Emmanuel foi-nos contando, em traços largos, alguns momentos essenciais da sua biografia. Nasceu naquela aldeia, Chapelle de L’If, a 10km de Dinan, pequena cidade histórica da Bretanha, rodeado por aquele mundo rural fantástico, sendo ele próprio originário de famílias camponesas de longa data.
Tornou-se professor primário, sendo mais tarde docente de manualidades e tecnologias.
Fez, em seguida, uma formação em biologia que o tornou especialista em agro-ecologia.
Toda a sua vida foi assim dedicada ao ensino de jovens e adultos, realizando experiências concretas na agricultura e inovado metodologias e técnicas de trabalho. Em 1993 ganhou um prémio por ter inventado um utensílio manual para trabalhar a terra com facilidade e eficácia.
Cooperando com outro professor, Gaël Vires, desenvolveu uma experiência exemplar a que chamou o “talude pedagógico”. Foi sobre esse talude pedagógico que, na manhã seguinte Emmanuell Rolland começou a primeira explicação prática. Levou-me a um local onde, sobre um montículo de terra, estavam plantadas variadíssimas espécies botânicas. Aquela experiência era uma das muitas realizações que começara anos antes na escola de Trevont.
Agora ali, diante daquele pequeno aterro rico em húmus, com uma altura de cerca de 50 cm, formava-se um pequeno muro cujo comprimento pode variar e tornar-se mesmo uma cerca dum qualquer terreno.
Aquele montículo teria uns 10m, tornando-se uma espécie de vitrine para mostrar as múltiplas variedades botânicas e a sua organização ecosistémica.
Os alunos podiam ver, face a este mostruário vivo, o crescimento de múltiplas plantas estudando processos diferenciados de reprodução e as relações simbióticas entre espécies.Nesta complexidade ecosistémica pode-se assim estudar, ao vivo, a botânica. Pode-se cultivar e observar a metamorfose das plantas, a inter-relação que se estabelece com a fauna, nomeadamente múltiplos insectos e pássaros que aí se vêm anichar e que se manifestam como bioindicadores do terreno.
Plantas e animais, particularmente insectos, lagartos e caracóis e plantas muitas vezes consideradas inúteis e/ou nocivas, expressam a qualidade do terreno tornando-se assim importantes indicadores da acidez, alcalinidade do solo, qualidade do húmus, higrometria, etc.
Emmanuell explica que o talúde pedagógico recria o ambiente da floresta que é, finalmente, a mãe de todo o princípio da agricultura por ser um ecosistema o mais completo possível, favorecendo o crescimento de plantas, permitindo a criação de um abrigo contra os ventos, um muro verde de beleza e utilidade alimentar pois muitos dos pequenos arbustos que fomos observando eram comestíveis (groselhas, mirtilios, framboesas, etc.).
Esta actividade agro-ecológica torna-se assim processo pedagógico multifuncional pois, promovendo a sensibilidade estética estabelece uma relação do homem com a natureza, permite o desenvolvimento dum pensamento ecosistémico aberto e realiza, simultaneamente, uma base de sustentabilidade alimentar para homens e animais.
No vale da ribeira de Romanzon, onde correm águas residuais poluídas pela actividade agro-industrial, Emmanuell plantou árvores que previamente semeara em pequenas garrafas de plástico com a ajuda de todos os participantes ligados à Associação de Languenin.
Semear árvores, em vez de plantar, é toda uma filosofia que Emmanuell Rolland desenvolve ha já alguns anos. Recolhe sementes de vários tipos: bolotas, carvalhos, abrunhos, ameixas, pêssegos, nêsperas, etc., introduz essas sementes numa vasilha com furos nas paredes laterais e enterra-a na terra, excepto o bocal que fica fechado mas fora do solo para se abrir ou fechar quando se armazenam as sementes.
A humidade do solo à sombra duma nogueira ou doutra árvore frondosa, mantém a frescura e humidade ideais. Aí se fazem as reservas essenciais das sementes que começam mesmo a germinar, antes de serem semeadas na terra. Na altura própria, retiram-se para as garrafas de plástico onde, graças a um sistema especial, se cria uma vasilha propícia a fazer germinar a semente.
Surge aqui toda uma ecotécnica que reutiliza materiais (garrafas de plástico)e que simultaneamente propicía a formação de tubos de ensaio (cada garrafa é um tubo de ensaio) facilitando o estudo da planta e melhorando as suas condições de crescimento. Emmanuell Rolland exemplificou-me a técnica demonstrativa da garrafa plástica.
Tudo isto vem nos dois pequenos livros que escreveu.
Naquele campo duma aldeia perdida na Bretanha, Emmanuell Rolland iniciou essas simples actividades agro-ecológicas.
Durante anos alargou a sua sabedoria às ervas aromáticas e medicinais. A vivência rural ancestral com que lidou desde a sua infância fortificou-se com o saber adquirido e no conhecimento de outros autores como Fukuoka, Pfeiffer, Pierre Rabhi e Claude Aubert. A acção exemplar deste homem notável pode ser um estímulo para nós próprios.
Quando cheguei a Portugal, depois desta viagem, pareceu-me ter feito uma experiência iniciática pré-monitória. O País ardia, as florestas, ou seja, as monoculturas industriais de eucaliptos e pinheiros serviam de pasto aos enormes incêndios.
Pela estrada, vindo da Galiza, entrava na visão dantesca destes fogos do alto minho. Revelava-se-me, mais uma vez, os erros estruturais da organização florestal e do território.
Mostrava-se assim a destruição da vida rural, que temos vindo a assistir neste país. Recordei o tempo longínquo em que, com alguns amigos das ainda insípidas associações ambientais, nos juntávamos na luta contra essa destruição. Um dia, chegamos a Valpaços porque o sino tocara a rebate nas serranias transmontanas. Despontavam eucaliptos onde tinham arrancado oliveiras. Aqueles eucaliptos tomavam o lugar onde as pacíficas oliveiras viviam há mais de cem anos. O povo das aldeias assistia aterrado a essas mobilizações do terreno, organizadas pelas multinacionais que, durante o cavaquismo iam transformando a agricultura tradicional em floresta industrial para papel.
Foi nessa tarde de verão que, por detrás duma bouça, surgiu a cavalo a guarda republicana para proteger um qualquer grupo económico. E, quando pacífica e ordeiramente quisemos atravessar aquele campo que mais parecia um cemitério plantado de baionetas, um guarda, montado no seu cavalo assapou-me com o cacetete na cabeça.
Depois destes incêndios todos em Portugal, espero que o exemplo de Emmanuell Rolland possa tornar-se numa semente que chegue até nós. E homens notáveis, como este, em Portugal, possam fazer frutificar hortas, jardins e florestas sobre este solo feito cinzas.

Reflexão crítica do modelo de crescimento económico eurocêntrico e propostas para um desenvolvimento ecologicamente sustentado.

Comunicação apresentada pelo Professor Doutor Jacinto Rodrigues (professor catedrático da Universidade do Porto) no Congresso da Lusofonia em África, organizado pelo CODESRIA (Council for the Development of Social Science Research in Africa). A ler aqui, em formato PDF.

quarta-feira, novembro 09, 2005

Notas para uma estratégia de ecopolis

Por Jacinto Rodrigues
Professor catedrático da Universidade do Porto


1. METODOLOGIA
A primeira reflexão metodológica é a necessidade de pensar em termos interdisciplinares e transdisciplinares nas intervenções urbanas. A abordagem deve ser integrada. Os vários elementos: a componente das energias, da produção, da circulação, dos consumos e da reciclagem, interagem uns nos outros. Assim, as questões naturais, técnicas e sociais são sistémicas e só podem ser abordadas segundo o pensamento da complexidade.
Essa abordagem deve ser mais profiláctica do que terapêutica. A cidade deve ser entendida como um eco-sistema. Tal perspectiva exige sair da visão “moderna” da cidade mega-máquina e procurar enquadrar a urbe como a expressão eco-sistémica da ligação da sociedade como componente da Biosfera. Este é o sentido lato com que se deve entender a paisagem antrópica.
A cidade como mega-máquina é dissipativa, consumista e contaminante. Tem como matriz o “Shoping Center”.
A eco-polis, cidade como eco-sistema regenerativo, funciona num processo integrado entre civilização, eco-técnica e biosfera.

2. CONCEPÇÃO DA PAISAGEM
Assim, a estrutura construída, o processo de urbanização, deve enquadrar-se na paisagem mais global e articular-se na cidade-região/cidade-natureza.
Como corolário deste ponto de vista procura-se então, em vez do uso de energias fósseis que levam ao esgotamento dos recursos naturais, criar uma produção de energias renováveis e eliminar uma produção com materiais poluentes e energias não limpas, evitando os resíduos contaminantes e tóxicos. Os lixos deveriam ser recicláveis, permitindo assim a substituição do metabolismo linear, próprio das máquinas, em metabolismo circular ou regenerativo dos seres vivos. Esta é toda a diferença existente entre um entendimento da cidade como máquina ou da cidade como “ecosistema”.

3. MULTIFUNCIONALIDADE
A monofuncionalidade, ou seja, a separação das actividades urbanas, característica dos zonamentos da cidade-máquina “moderna”,deve dar lugar a uma interacção onde os mesmos elementos podem constituir respostas multifuncionais.
Isto é particularmente importante no que diz respeito à relação entre paisagem natural e edificação. As árvores e os arbustos, a reorganização do planeamento vegetal em geral, e também a reorganização hidrológica, constituem factores não apenas susceptíveis de embelezamento estético mas de bioclimatização e de biodepuração.

4. BIO-CLIMATIZAÇÃO E BIO-DEPURAÇÃO
O verde urbano, através de corredores verdes, jardins e bosques urbanos, deve ter uma função ecológica decisiva para a bioclimatização e biodepuração.
Muito do lixo orgânico, resultante dos consumos urbanos, pode ser reciclado como fertilizante para hortas e bosques. Recorde-se o exemplo de Curitiba em que os fertilizantes orgânicos entregues pelos cidadãos, permitem a troca com produtos agrícolas criados nas hortas municipais.
Também a renaturalização dos rios não é apenas uma questão de estética.
Hoje conhecem-se bem os fenómenos da fito-depuração dos sistemas de lagunagem, da meandrização e das pequenas cascatas como factores de melhoria na qualidade da água.

5. ENERGIAS RENOVÁVEIS
As energias renováveis devem ser tratadas como uma questão central do ecodesenvolvimento. Devem ser utilizadas duma forma integrada e essencialmente numa escala regional. Por exemplo: mini-centrais que articulem várias energias complementares (solar/ eólica/ hídrica/ biogás, etc.) podem responder muito melhor do que estruturas gigantes monoenergéticas. A escala construtiva comunitária oferece também vantagens sobre o uso de protótipos energéticos à escala familiar. Todas estas estruturas devem inserir-se numa malha policêntrica do território, capaz de o cobrir, energeticamente, com o máximo de descentralidade e complementaridade.

6. BIO-CONSTRUÇÃO
A edificação deve pautar-se por uma legislação com preocupações ecológicas claras. O uso de materiais não poluentes, as preocupações pelos sistemas solares passivos, a articulação com a bioclimatização gerada pela eco-paisagem, devem ser um factor chave. A própria disposição espacial pode valorar o aproveitamento energético.
O exemplo francês pode ser implementado como processo pedagógico. O programa denominado construção de alta qualidade ambiental (H.Q.C.) estabelece concursos especiais na base de soluções ecológicas através da escolha de materiais não poluentes e soluções energéticas alternativas.
As edificações públicas, em particular as escolas e centros de formação cultural devem tornar-se experiências exemplares. Quando funcionam segundo o preceito da eco-construção, favorecem comportamentos e atitudes que são as melhores soluções para uma verdadeira educação ambiental.
A construção bioclimática exige novas formas, novos materiais, novos processos de implantação topológica. Estas novas morfologias complexas são dispositivos catalizadores duma outra civilização.

7. AGRICULTURA E INDÚSTRIA ECOLÓGICA
Em articulação com a actividade construtiva e também em função de outras actividades como a industrial, deveria proceder-se a uma eco-agricultura que complementarizasse a abertura de novos postos de trabalho às exigências simultâneas da agricultura e indústria numa base ecológica.
Um exemplo que me parece interessante estudar é o do incentivo da cultura do cânhamo. Queremos aqui referir, evidentemente, o cânhamo industrial, isto é, a planta Cannabis Sativa L. cujo teor de T.H.C. é inferior a 0,3, não sendo por isso susceptível de ser utilizada como droga. Refira-se ainda que o cultivo desta planta industrial é subvencionado pela União Europeia.
A cultura do cânhamo foi praticada no Norte, Centro e Sul de Portugal, ao longo de várias épocas, nomeadamente no fabrico das velas e do cordame para os barcos à vela.
Tem a seguinte particularidade: é uma produção agrícola de fácil manutenção, beneficia os solos e permite, para além da tecelagem, o fabrico de papel e outros materiais. Acontece ainda que, através de processos recentes, esta planta está a ser utilizada na bioconstrução.
Também a transformação tecnológica do bambú chinês “miscanthus” poderá vir a possibilitar uma articulação entre a actividade agrícola e a bioconstrução.
São também possíveis outro tipo de actividades agrícolas (permacultura, agricultura biodinâmica) capazes de promover agro-pecuárias ecológicas.

8. TRANSPORTES ALTERNATIVOS
Os transportes públicos não poluentes deveriam constituir uma alternativa à invasão do trânsito urbano.
Com os corredores verdes, para além da função depuradora, criam-se circuitos pedonais e ciclovias que poderão permitir conexões entre várias zonas.
As passarelas constituem atravessamentos fáceis, permitindo logradouros por onde se espraiam paisagens urbanas.
Os centros da cidade, em particular os centros históricos, são avessos ao uso de automóveis.
No estado actual, os veículos são poluentes e constituem uma oposição ao uso de hortas urbanas e espaços públicos de lazer e cultura.

9. PARTICIPAÇÃO CONSCIENTE DAS POPULAÇÕES
A prática do urbanismo numa perspectiva ecológica deverá ter em conta a mobilização das populações na detecção dos problemas e sua resolução.
Assim, o eco-urbanismo é, antes de tudo, desígnio estratégico sujeito às múltiplas interacções surgidas ao longo dum percurso que deve ser entendido como processo permanente embora com faseamentos nos objectivos mas que serão sempre sujeitos a constantes avaliações e retroacções.
A “investigação-acção” e o “trabalho de projecto” são as práticas sociais que melhor se coadunam com esta filosofia. A mobilização consciente da população é decisiva. Volto ainda à experiência de Curitiba:
Nalguns festivais culturais, encontros de cinema, teatro ou música promovidos pela municipalidade dessa cidade brasileira, a entrada dos espectáculos é paga com garrafas usadas ou papel para reciclar. Este tipo de mobilização pela positiva é uma forma educativa que sendo alheia a qualquer processo administrativo-repressivo, liga as aspirações às necessidades, promove solidariedade e cooperação num clima social, lúdico e festivo tão necessário à participação popular nos objectivos de interesse público.
Através desse processo, a população vai tomando consciência da problemática ecológica e o planeador deixa de ter a arrogância dum tecnocrata autoconvencido dum qualquer “modelo” estático e “ad eternum...”.

Assim, o eco-urbanismo é um caminho que se faz caminhando, parafraseando o poeta Machado.
No entanto, qualquer intervenção deve ser reflectida e inserida numa óptica projectiva, futurante, pois os dispositivos topológicos são, por natureza, resistentes à mudança. E quando se constroem dispositivos errados, estes funcionam como travão às mudanças, podendo mesmo transformar-se em mecanismos de reprodução de hábitos opostos à necessária e permanente metamorfose social.

Jacinto Rodrigues
(Professor catedrático da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto)
Artigo publicado na revista «Arquitectura e Vida» de Março de 2004

segunda-feira, outubro 24, 2005

"Pyrheliophero"



O "Pyrheliophero". A pioneira máquina solar com que em 1904 o Padre Himalaya recebe o Grande Prémio da Exposição Universal de St. Louis, nos Estados Unidos da América.
Fotografia obtida do livro "A Conspiração Solar do Padre Himalaya" de Jacinto Rodrigues, Porto, Edição da Cooperativa Árvore, 1999

sexta-feira, outubro 14, 2005

Quem foi o Padre Himalaya? Uma entrevista com Jacinto Rodrigues



Entrevista concedida ao Portal das Energias Renováveis (PER)(http://www.energiasrenovaveis.com)


Quem era o Padre Himalaya?

Era um cientista, natural de Cendufe, Arcos de Valdevez, nascido em 1868 e que morreu em 1933.
Interessou-se pelas energias renováveis e por processos de organização territorial, nomeadamente sistemas de irrigação, plantação de árvores e sistemas urbanos que antecedem as preocupações actuais em torno do que se chama hoje o ecodesenvolvimento.

O que o fez dedicar-se à obra do Padre Himalaya e à sua divulgação?
A actualidade das suas preocupações em relação às energias renováveis e a necessidade de promover um outro tipo de desenvolvimento, oposto ao crescimento económico baseado em energias fósseis, esbanjamento, poluição e exclusão social.

Quais as principais invenções do Padre Himalaya?
A invenção mais conhecida do padre Himalaya é o pireliófero ou seja a máquina solar que, em 1904 ganhou o grande prémio na exposição de St. Louis nos E.U.A.
Seguiram-se outras invenções que também foram amplamente conhecidas na sua época, tais como as várias patentes relacionadas com explosivos. Outras patentes menos conhecidas referem-se a processos de obtenção de farinhas alimentares e rações para animais à base de crustáceos. Igualmente pouco conhecidas são as patentes relacionadas com motores: o turbo-motor e o motor a gás pobre.
Existem também inovações ou outras invenções que não se traduziram em patentes mas que, eventualmente, constituíram experiências criativas que podem ainda ser motivo de novas pesquisas. Refiro, nomeadamente, um sistema de canhões com um processo complexo de misturas explosivas que deveriam provocar chuva artificial.Lembro ainda que o Padre Himalaya fez investigações sobre o aproveitamento da energia solar através de fotopilhas. Apenas se conhecem breves esquissos.
É de assinalar ainda tratamentos fitoterápicos e propostas de medicina naturopata que o motivaram ao longo de toda a sua vida como terapeuta.

Qual a razão porque os portugueses nunca tinham ouvido falar desta peculiar personagem científica portuguesa?
Razões contextuais que têm a ver com o facto de ser um padre que era simultaneamente pro-republicano e eventualmente maçónico. Por outro lado, dedicou-se à energia solar no momento em que o modelo baseado no petróleo estava a fazer a sua ascensão e determinaria todo o processo industrial e civilizacional do capitalismo.
É também possível que alguns dos seus inventos, que não tiveram aplicação prática imediata e outros que suscitaram enorme controvérsia, tenham contribuído para uma aura de génio incompreendido neste personagem cuja actuação na sociedade foi, muitas vezes, contra-corrente.

Acha que o Padre Himalaia teve o devido reconhecimento científico em Portugal?
O Padre Himalaya, pelo facto de desenvolver a sua problemática num paradigma ecotecnológico nunca foi compreendido por uma sociedade hegemonicamente positivista e mecanicista, baseada numa tecno-ciência à base das energias fósseis. Por outro lado, a sociedade cultural em que viveu, dificilmente estava aberta a um homem que, conservando-se padre católico, tinha contudo anti-corpos no clero por ser aberto ao laicismo e ter um ponto de vista mais liberal do que a igreja do seu tempo.
Também a sociedade republicana e anti-clerical via com desconfiança um cientista que continuava padre.

Como surge o título do seu livro: “A conspiração solar do padre Himalaya”?
Este título é propositadamente ambíguo pois pretende referir um enquadramento repressivo do paradigma das energias fósseis face a uma proposta científica e cultural baseada nas energias renováveis, em especial na energia solar. Por outro lado, este título refere também que a persistência na defesa da energia solar por parte do Padre Himalaya, permitiu consolidar um pensamento contra-corrente que está vir ao de cima nos nossos dias com a emergência do paradigma ecológico que estamos a viver.
A sua invenção mais curiosa e espectacular é o pirelióforo.

Qual é a razão no seu entender para que o Padre Himalaya tenha desenvolvido a sua investigação na direcção da energia Solar?
O Padre Himalaya referiu vários objectivos ao dedicar-se à energia solar: energia gratuita e generalizada a todo o planeta.
Pretendia obter energia térmica para o funcionamento de motores a vapor que fossem capazes de desenvolver energia motora, nomeadamente para obtenção de electricidade.
Pretendia também utilizar as altas temperaturas para aplicação na siderurgia.
Pretendia ainda a utilização de altas temperaturas para a transformação do azoto em nitratos, úteis à agricultura.

O primeiro protótipo desse pirelióforo da sua autoria foi apresentado em Sorède. Porquê?
O primeiro protótipo foi apresentado em Neully-Paris, entre 1899 e 1900.Foi em Julho e Agosto de 1900 que apresentou um segundo protótipo, em Sorède. Era muito maior e o Padre Himalaya quis testá-lo numa zona conhecida pela sua exposição solar- os Pirinéus Orientais. Razões de ordem ainda desconhecida permitiram uma relação entre o Padre Coll e o Comandante Bazeries que favoreceram a permanência nesse local.

Passados 100 anos da sua grande invenção, o “Pireilióforo”, quais os avanços científicos nesta área?
Deram-se passos seguramente muito importantes no domínio da energia solar. Basta observar o forno solar de Odeillo, o projecto Themis e outros, para se revelarem os avanços técnicos desta invenção do Padre Himalaya, que os antecedeu.

O trabalho do Padre Himalaya é de tão elevado alcance que merecia mais do que um livro. Será que Portugal pode aprender alguma coisa com a dedicação deste cientista?
Penso que, essencialmente, para além da contribuição eco-tecnológica do Padre Himalaya é importante assumir hoje alguns dos aspectos mais importantes do seu discurso teórico, em relação, nomeadamente, à educação e ao desenvolvimento ecologicamente sustentado.
Assim, o Padre Himalaya desenvolveu ideias concretas sobre processos de formação pedagógica e profissional que deveriam levar à criação de quintas escolares, possibilitando uma relação constante entre os alunos e as actividades com a natureza.
O associativismo e o cooperativismo, à escala regional, nacional e internacional deveriam levar à criação duma sociedade sem exclusão social.
Uma dietética mais centrada sobre a alimentação vegetariana e uma medicina profiláctica centrada na naturopatia, constituíam preocupações essenciais que o Padre Himalaya defendeu e praticou.

Professor Doutor Jacinto Rodrigues (Professor Catedrático da Universidade do Porto)